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Conflito no Mar Negro e demanda interna sustentam alta do milho no Brasil

O mercado brasileiro de milho atravessa um período de preços mais firmes, influenciado simultaneamente pela escalada das tensões no Leste Europeu e por uma demanda doméstica consistente. A combinação de fatores geopolíticos e estruturais tem limitado recuos e mantido as cotações em patamares elevados ao longo do início de dezembro.

No âmbito externo, declarações recentes da Rússia sobre a possibilidade de bloquear o acesso de embarcações ucranianas ao Mar Negro intensificaram a preocupação com o fluxo de grãos da região. Ucrânia e Rússia figuram entre os principais exportadores mundiais de milho e trigo, e qualquer dificuldade logística tende a reduzir a oferta global. Diante desse cenário, os contratos futuros negociados em Chicago registraram alta imediata, movimento que se refletiu na B3.

Na bolsa brasileira, os contratos futuros de milho avançaram entre 0,6% e 2,4%. O vencimento para janeiro encerrou o pregão próximo de R$ 76 por saca de 60 kg. Operadores avaliam que parte da demanda antes atendida pela Ucrânia deve buscar origem em outros fornecedores, com destaque para o Brasil. Importadores da África e do Oriente Médio aparecem entre os compradores mais propensos a redirecionar pedidos, dada a incerteza no Mar Negro.

Embora o fator geopolítico seja relevante, a sustentação de preços no Brasil também se apoia em fundamentos internos robustos. O consumo de milho pela cadeia de aves e suínos permanece elevado e recorrente, assegurando escoamento regular do cereal ao longo do ano. Paralelamente, a expansão da produção de etanol de milho, sobretudo no Centro-Oeste, introduziu um novo agente de peso na ponta compradora. Usinas que operam nesse segmento ampliam a competição pelo grão, contribuindo para restringir oferta disponível no mercado físico.

A capacidade de armazenagem do produtor brasileiro avançou nos últimos anos e se tornou outro elemento de impacto. Com mais silos próprios, agricultores conseguem postergar vendas e liberar volumes gradualmente, evitando pressionar as cotações durante os períodos de maior colheita. Esse comportamento contrasta com safras anteriores, quando a comercialização concentrada logo após a colheita provocava quedas mais acentuadas nos preços.

Em Mato Grosso do Sul, estado com forte representatividade na segunda safra, as cotações captadas por consultorias evidenciam o momento de firmeza. Em São Gabriel do Oeste, a saca de 60 kg foi negociada a aproximadamente R$ 53,76, alta diária de 0,49%. Chapadão do Sul registrou leve recuo de 0,5%, com o preço em R$ 55,40. No município de Maracaju, o valor permaneceu estável, girando em torno de R$ 56,20. Já em Dourados, a referência subiu R$ 0,50, alcançando R$ 57,17 por saca.

Analistas ressaltam que, além do consumo interno aquecido, a oferta internacional segue condicionada ao desenrolar do conflito no Leste Europeu. A percepção de risco logístico continua determinante para as decisões de compra, tanto no mercado futuro quanto no físico. Caso as restrições no Mar Negro se intensifiquem ou perdurem, operadores veem possibilidade de manutenção das cotações em patamares elevados, beneficiando a competitividade do milho brasileiro nas exportações.

Com a aproximação do encerramento do ano, produtores avaliam o cenário com certa cautela, mas reconhecem que a atual combinação de demanda sólida e incerteza externa favorece estratégias de comercialização escalonadas. A presença simultânea de compradores domésticos — indústria de ração e usinas de etanol — e estrangeiros cria ambiente que tende a sustentar o valor da saca, ao menos no curto prazo.

Dessa forma, o setor entra em dezembro diante de um quadro de preços valorizados, impulsionado por fatores que vão além do fluxo tradicional de oferta e demanda. A guerra no Mar Negro adiciona variável extra ao mercado global, enquanto o crescimento estrutural do consumo brasileiro consolida um piso mais alto para as cotações internas.