Uma discussão acalorada no Palácio do Planalto colocou frente a frente o advogado-geral da União, Jorge Messias, e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues. O encontro, marcado por trocas de xingamentos e acusações de espionagem, expôs uma crise profunda no primeiro escalão do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT). As informações foram reveladas pela jornalista Marcela Mattos, em coluna no portal UOL.
O confronto ocorreu no início deste mês, logo após uma solenidade sobre leis do sistema judiciário. Ao entrar na sala presidencial, Rodrigues foi confrontado imediatamente por Messias, que perguntou se estava sendo espionado. Irritado, o ministro da AGU emendou ofensas, questionando se era verdade que monitoravam seu telefone. A reunião contou com a presença direta de Lula, descrita por testemunhas como um diálogo de extrema tensão.
Segundo interlocutores, o diretor da PF rebateu no mesmo tom. Ele negou que a corporação praticasse espionagem contra o titular da AGU e classificou a cobrança como um chilique. Rodrigues disparou ainda que Messias, por ser evangélico, deveria dar sermão na igreja e não no Planalto.
Origem do conflito
O estopim para a discussão foi a quebra de sigilo autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). A medida liberou um relatório de inteligência da Polícia Federal que questionava procedimentos do ministro André Mendonça, relator do inquérito do Banco Master. O texto sugeria que Messias teria sido omisso ao não recorrer de determinações do magistrado.
O documento policial apontava afinidades religiosas e apoio anterior de Mendonça à indicação de Messias ao STF. Um trecho final, após descartar ações externas imediatas, anotava que a situação autorizava monitoramento e coleta dirigida. Essa menção acendeu a revolta do advogado-geral, que passou a suspeitar de vigilância ilegal sobre sua rotina e telefonemas.
Por sua vez, a cúpula da PF se queixava de que Messias resistia a travar decisões de Mendonça. A corporação alegava que diálogos mantidos sob reserva vazavam com rapidez para o ministro do STF. Dias antes, uma rusga já havia ocorrido com o marqueteiro Sidônio Palmeira, que chamou Mendonça de irmão de Messias durante reunião, ouvindo uma negativa enfática e palavrões do advogado-geral.
Desdobramentos jurídicos
Quatro dias após o bate-boca, André Mendonça determinou o afastamento de Andrei Rodrigues do comando da Polícia Federal. O ministro alegou que o setor de inteligência realizava um monitoramento sistemático e ilícito contra ele e contra o chefe da AGU. A ordem provocou um novo choque entre os envolvidos.
Sem autorização do delegado, a Advocacia-Geral da União ingressou com recurso contra a decisão. Andrei Rodrigues telefonou pessoalmente para Messias para vetar a representação, afirmando que ele estava proibido de recorrer em seu nome. O titular da AGU respondeu que agiria em nome do presidente da República e ironizou sobre a autoria da decisão judicial, dizendo que, se tivesse de fazer alguma coisa com Rodrigues, teria mandado prendê-lo.
Recusando o auxílio do órgão federal, Rodrigues contratou defesa particular e acionou o STF via petição distribuída ao ministro Flávio Dino. Dino revogou a saída do diretor em menos de 24 horas. Paralelamente, o recurso da AGU chegou à presidência do tribunal, onde o ministro Edson Fachin suspendeu os efeitos das duas decisões monocráticas e abriu prazo formal para manifestação de todas as partes. Procurados pela coluna do UOL, Jorge Messias e Andrei Rodrigues não quiseram se pronunciar.







