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COP15 reforça proteção internacional a espécies do Pantanal, como ariranha, pintado e caboclinho

A 15ª Conferência das Partes da Convenção sobre Espécies Migratórias (COP15) encerrou-se em Campo Grande com a decisão de ampliar os mecanismos globais de proteção para 40 espécies, subespécies e populações. Entre os novos contemplados estão três representantes emblemáticos do Pantanal: a ariranha (Pteronura brasiliensis), o surubim-pintado (Pseudoplatystoma corruscans) e o caboclinho-do-pantanal (Sporophila iberaensis). A inclusão nos apêndices da convenção determina que os países de ocorrência adotem medidas coordenadas para garantir a conservação desses animais ao longo de todo o ciclo de migração ou deslocamento sazonal.

A ariranha, maior espécie de lontra das Américas, depende de rios, corixos e áreas alagadas preservados para formar grupos familiares e capturar presas. A vulnerabilidade do mamífero está associada à degradação de cursos d’água, à pesca predatória e à contaminação por mercúrio. Já o surubim-pintado, peixe de água doce apreciado pela pesca comercial e artesanal, tem importância socioeconômica para comunidades ribeirinhas e enfrenta redução de estoques por pressão pesqueira e alteração de habitats. O caboclinho-do-pantanal, ave migratória ainda pouco estudada, utiliza campos abertos e áreas de inundação no interior da planície, sofrendo impacto direto de queimadas, agroquímicos e perda de vegetação nativa.

Além das espécies pantaneiras, a conferência acrescentou ao rol de proteção o cação-cola-fina (Mustelus schmitti), os tubarões-raposa do gênero Alopias e tubarões-martelo do gênero Sphyrna. Entre as aves, passam a contar com status reforçado o maçarico-de-bico-torto (Numenius phaeopus hudsonicus), o maçarico-de-bico-virado (Limosa haemastica) e diversas espécies de petréis e grazinas dos gêneros Pterodroma e Pseudobulweria. A atualização dos apêndices obriga os signatários da convenção a intensificar a proteção de rotas migratórias, locais de reprodução, repouso e alimentação, além de controlar atividades que representem ameaça direta, como pesca incidental e poluição.

Durante a coletiva de encerramento, o Ministério do Meio Ambiente classificou os resultados como um dos mais consistentes já obtidos pela convenção. De acordo com a pasta, a realização do encontro em Campo Grande contribuiu para evidenciar a relevância do Pantanal, bioma considerado estratégico para a conservação de espécies que cruzam fronteiras nacionais. Representantes do Ministério das Relações Exteriores ressaltaram que, por envolver animais que percorrem longas distâncias, a efetividade das decisões depende de ações integradas entre governos, organismos multilaterais e sociedade civil.

Na prática, a COP15 aprovou 15 ações concertadas, que funcionam como planos de trabalho compartilhados, e 39 resoluções voltadas à redução de impactos ambientais, criação de corredores ecológicos e proteção de habitats críticos. Um dos dispositivos estabelece diretrizes para conter a mortalidade de fauna marinha por captura acidental em artes de pesca. Outro orienta a restauração de áreas úmidas continentais essenciais para mamíferos aquáticos, peixes migradores e aves limícolas.

Para facilitar a implementação, os países concordaram em desenvolver uma estratégia de mobilização de recursos financeiros, técnicos e científicos. O objetivo é apoiar nações em desenvolvimento, responsáveis por porções significativas das rotas migratórias, mas que enfrentam limitações orçamentárias. Instrumentos como fundos multilaterais, parcerias público-privadas e cooperação acadêmica foram citados como vias prováveis de financiamento.

Mato Grosso do Sul, anfitrião do encontro, avalia que a visibilidade alcançada pode fortalecer políticas já existentes de prevenção a queimadas, monitoramento de fauna e estímulo à pesquisa científica no Pantanal. Secretarias estaduais projetam ampliar programas de fiscalização de pesca, incentivar práticas agropecuárias sustentáveis e integrar bancos de dados sobre ocorrências de espécies migratórias com outros estados e países vizinhos.

Segundo a organização, mais de 2.400 participantes, entre delegados governamentais, especialistas, representantes de organizações não governamentais e observadores, acompanharam os debates ao longo da conferência. O consenso final indica que o sucesso das novas listagens dependerá de monitoramento contínuo, troca de informações e relatórios periódicos ao secretariado da convenção, que compilará indicadores de progresso para avaliação nas próximas edições.

Com a atualização dos apêndices, as nações signatárias assumem o compromisso de revisar legislações internas, fortalecer sistemas de licenciamento ambiental e adotar programas de educação voltados a comunidades que convivem diretamente com as espécies protegidas. A expectativa é que, ao reconhecer formalmente a importância do Pantanal e de outros ecossistemas brasileiros para rotas migratórias, a COP15 abra caminho para novos investimentos em conservação e pesquisa, ao mesmo tempo em que sinaliza a urgência de ampliar a cooperação internacional no enfrentamento das pressões sobre a biodiversidade.

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