A Santa Casa de Campo Grande vive novo capítulo de instabilidade após a paralisação parcial de funcionários desencadeada pelo atraso no pagamento do 13º salário. O movimento, iniciado após a proposta de parcelamento do benefício em três vezes a partir de janeiro de 2026, mobilizou cerca de 600 trabalhadores, enquanto aproximadamente 70% do efetivo foi mantido em atividades de urgência.
A reivindicação unificou categorias que vão da limpeza ao corpo clínico. Representantes do Sindicato dos Trabalhadores na Área da Enfermagem de Mato Grosso do Sul (Siems) e do Sindicato Intermunicipal dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Serviços de Saúde (Sintesaúde) afirmam que a paralisação só será encerrada com a quitação integral do 13º. Segundo os sindicatos, além de atrasos salariais, faltam condições adequadas de trabalho e há sobrecarga de plantões, situação considerada recorrente ao longo de 2025.
Risco de descontinuidade e baixa de insumos
Entidades médicas passaram a relatar risco de colapso nos atendimentos. O Conselho Regional de Medicina de Mato Grosso do Sul (CRM-MS) apontou, em fiscalizações recentes, estoque reduzido de medicamentos de emergência. A preocupação é de que eventual suspensão de serviços na Santa Casa afete toda a rede de saúde de Campo Grande, já que o hospital responde por grande parte dos procedimentos de média e alta complexidade do Sistema Único de Saúde (SUS) na capital.
Responsabilidades e repasses em disputa
O impasse ganhou contornos políticos quando Prefeitura e Governo do Estado divulgaram notas com versões distintas sobre obrigações financeiras. O município afirma que os repasses contratuais estão em dia e destaca o envio de aporte extra de R$ 1 milhão por mês desde o início de 2025 para ajudar nos custos do hospital. Já o Estado sustenta não haver pacto que lhe atribua o pagamento do 13º salário e detalha que os valores de contratualização, transferidos ao município, totalizaram R$ 90.773.147 entre janeiro e outubro, média de R$ 9.077.314,70 mensais. Em novembro, a soma subiu para R$ 9.593.830,59 com acréscimo de R$ 516.515,89.
O Executivo estadual ainda recorda que repasses extraordinários realizados em anos anteriores não criaram obrigação permanente. Como exemplo, cita-se o envio de R$ 25 milhões em 2025, recurso articulado pela bancada federal e liberado por meio do Fundo Estadual de Saúde. Esse montante foi prometido em três parcelas de cerca de R$ 8,3 milhões, com pagamentos previstos entre abril e junho, para reabastecer estoques e reforçar o caixa da instituição.
Situação financeira já pressionava gestão
Mesmo antes da greve, a governança da Santa Casa era alvo de debates. Em 03 de abril de 2025, reunião com representantes do Governo de Mato Grosso do Sul, Prefeitura, bancada federal e direção do hospital condicionou a liberação do socorro de R$ 25 milhões a mudanças no modelo administrativo. O governador Eduardo Riedel defendeu ‘alterações estruturais’ para garantir previsibilidade financeira.
Nos anos anteriores, o hospital também recebeu um convênio de R$ 15 milhões em 2024, pago em três parcelas, e outro aporte de R$ 9 milhões destinado ao 13º salário daquele ano. A administração da Associação Beneficente de Campo Grande (ABCG), mantenedora da Santa Casa, sustenta que o déficit operacional gira em torno de R$ 12 milhões mensais.
Intervenção determinada pela Justiça
Com o acirramento da crise, o Ministério Público de Mato Grosso do Sul ingressou com ação civil pública. O juiz Eduardo Lacerda Trevisan, da 2ª Vara de Direitos Difusos, Coletivos e Individuais Homogêneos, acolheu o pedido e determinou intervenção parcial no hospital. Na decisão, o magistrado apontou “indícios de descontinuidade de serviços essenciais” e exigiu, em prazo de 90 dias, a apresentação de plano emergencial que regularize repasses, garanta pagamentos a fornecedores e assegure a continuidade dos atendimentos.
O despacho prevê multa diária caso as determinações não sejam cumpridas e autoriza o sequestro judicial de valores correspondentes ao déficit apurado. A divisão da insuficiência orçamentária ficou estabelecida em partes iguais entre Município e Estado. A ABCG pode recorrer no período de 15 dias.
Pressão sobre o sistema público
Enquanto o imbróglio financeiro se arrasta entre negociações, notas oficiais e decisões judiciais, sindicatos alertam para a permanência da paralisação até que o 13º salário seja pago integralmente. A administração do hospital afirma que não há caixa suficiente sem novo aporte público. Com 3.600 empregados e relevância estratégica para o SUS em Campo Grande, qualquer interrupção prolongada pode sobrecarregar as demais unidades de saúde da capital.
Nesse cenário, trabalhadores reivindicam direitos e melhores condições, governos defendem a regularidade de suas obrigações e a direção da Santa Casa é cobrada por maior eficiência. Até que um acordo definitivo seja alcançado, a incerteza persiste sobre a normalização dos atendimentos e o futuro financeiro do principal hospital filantrópico de Mato Grosso do Sul.









