O Dia do Leitor, celebrado em 7 de janeiro, reacende o debate sobre a dificuldade de formar novos leitores em um cenário dominado por telas, vídeos breves e discussões superficiais. Em Mato Grosso do Sul, a data serve de mote para reflexões do escritor Henrique de Medeiros, presidente da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras (ASL), que defende políticas públicas permanentes de incentivo à leitura e aponta consequências sociais da redução desse hábito.
Leitura além da formação técnica
Para Medeiros, o problema não se restringe a gerações mais jovens nem surge exclusivamente com a popularização da internet. Segundo ele, a preocupação com a leitura acompanha a história da escrita, mas vem ganhando contornos mais complexos diante da velocidade das tecnologias de comunicação. “Quanto mais você lê, mais tolerante se torna e melhor compreende o mundo”, resume o autor, ao reforçar que a experiência literária influencia não só o desempenho escolar ou profissional, mas também a sensibilidade e o senso crítico.
O escritor distingue a leitura literária da consulta a obras técnicas. Embora reconheça a importância de manuais e materiais didáticos, sustenta que o contato com ficções, poemas e crônicas oferece vivências sensoriais e emocionais que ampliam repertórios culturais e afetivos. Tais manifestações, acrescenta, contribuem para a formação de cidadãos capazes de lidar com a diversidade de opiniões e de analisar questões complexas.
Papel estratégico da escola pública
Medeiros atribui à escola – especialmente a rede pública – responsabilidade central na criação de hábitos de leitura, sobretudo entre crianças que não dispõem de exemplos dentro de casa. “Se a criança não é estimulada cedo, o caminho fica mais difícil depois”, afirma o presidente da ASL. Para ele, projetos isolados não suprem a necessidade de um programa contínuo, com bibliotecas atualizadas, acesso facilitado a livros e ações pedagógicas que integrem a leitura ao currículo.
Além de tarefas formais, o autor sugere atividades que despertem prazer e curiosidade, como clubes de leitura, rodas de conversa e visitas de escritores. Essas iniciativas, argumenta, aproximam os alunos da pluralidade de estilos e gêneros literários, reduzindo a percepção de que ler é obrigação escolar. O estímulo precoce também favoreceria a diminuição dos índices de abandono da leitura na adolescência, fase em que o tempo livre costuma ser ocupado por redes sociais e plataformas de entretenimento digital.
Debate público e carência de referências locais
O presidente da academia relaciona a queda no número de leitores ao que chama de empobrecimento do debate público. Na avaliação dele, discursos polarizados e intolerantes decorrem, em grande parte, da falta de leitura, que limita repertórios e dificulta a compreensão de pontos de vista diferentes. Conforme Medeiros, o problema se agrava quando o ensino de história e cultura regional é negligenciado, criando lacunas sobre a formação do próprio Estado.
Nesse contexto, ele ressalta a necessidade de valorizar autores e fatos históricos de Mato Grosso do Sul. A ausência desse conteúdo nas salas de aula, aponta o escritor, reduz as possibilidades de identificação dos estudantes com a produção literária local e dificulta o reconhecimento da herança cultural sul-mato-grossense.
Ações da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras
Com o objetivo de estreitar o vínculo entre literatura e comunidade, a ASL mantém programação mensal aberta ao público em Campo Grande. Entre as atividades estão leituras comentadas, rodas acadêmicas e palestras com convidados regionais e nacionais. Ao longo dos encontros, já foram discutidos autores como Paulo Leminski, Gabriel García Márquez e o sul-mato-grossense Lino Villachá. A academia também promoveu homenagens a figuras consideradas imortais da cultura do Estado, entre elas Manoel de Barros, Nelly Martins e Maria da Glória Sá Rosa.
Ao expandir o acesso às suas iniciativas, a instituição busca combater o distanciamento entre leitores em potencial e a produção literária regional. Segundo Medeiros, atividades gratuitas e regulares funcionam como porta de entrada para pessoas que, de outra forma, não teriam contato com obras variadas nem com debates sobre literatura.
Leitura como resistência e mudança social
No Dia do Leitor, a mensagem difundida pela ASL resume-se à convicção de que ler permanece sendo um ato de resistência e um instrumento de transformação social. Para Henrique de Medeiros, a prática regular amplia horizontes, fortalece o espírito crítico e promove a tolerância em meio a um ambiente marcado por controversas instantâneas e diálogo reduzido. Ainda que os desafios à formação de leitores se intensifiquem com a concorrência das mídias digitais, o escritor acredita que políticas públicas consistentes, aliadas à ação de escolas e instituições culturais, podem reverter a tendência de queda do hábito da leitura.
Ao defender a inclusão da leitura em uma estratégia de Estado, Medeiros sustenta que o investimento em bibliotecas, formação de professores e divulgação de autores locais constitui medida essencial para qualificar o debate público e fomentar o desenvolvimento humano. Para ele, quem amplia a própria capacidade de olhar ao redor também se torna capaz de avançar individual e coletivamente.









