O avanço do preço internacional do petróleo, provocado pelo agravamento das tensões geopolíticas entre Estados Unidos, Israel e Irã, já se reflete em diversas camadas da economia mundial e impõe novos obstáculos ao comércio exterior do Brasil. O valor do barril do tipo Brent, que vinha operando abaixo de US$ 70, ultrapassou a marca de US$ 100 durante o período de conflito, acumulando alta próxima a 50% em poucos meses. De acordo com o especialista em comércio exterior Aldo Barrigossi, esse movimento pressiona diretamente custos produtivos e logísticos no país.
Na avaliação do analista, o petróleo exerce influência decisiva sobre itens essenciais, como alimentos, fertilizantes e transporte. Em uma fase estratégica para o agronegócio — a colheita de soja — o encarecimento do combustível agrava gastos de frete, principal modal logístico brasileiro. Estradas respondem por aproximadamente 60% a 65% da movimentação de mercadorias no território nacional, e a elevação do diesel compromete a margem dos exportadores, reduzindo a competitividade dos embarques nos portos.
Além da variação cambial e do preço do combustível, gargalos operacionais agravam o cenário. Barrigossi cita novas exigências em terminais portuários, que ampliam despesas e provocam atrasos. Mesmo com disponibilidade de produto e capacidade instalada, a previsão de exportação de soja corre risco de não se concretizar. Para investidores e empresários, a combinação de custos ascendentes e incertezas logísticas dificulta o planejamento das próximas safras e pode adiar aportes em infraestrutura ou tecnologia.
No mercado interno, parte do reajuste já chegou às bombas, ainda que a política de preços da Petrobras tenha repassado apenas parcela da alta internacional. O acréscimo no diesel repercute imediatamente sobre tarifas de transporte de insumos e cargas acabadas, contaminando toda a cadeia produtiva. Em um país cuja matriz de distribuição é predominantemente rodoviária, o impacto no frete tende a se propagar até o consumidor final, pressionando índices de inflação.
O etanol, misturado em cerca de 30% da gasolina comercializada no Brasil, também acompanha o movimento. Em plena entressafra da cana-de-açúcar, a oferta limitada coincide com o aumento do petróleo, resultando em elevação adicional dos preços. Embora parte da escalada seja atribuída a expectativas do mercado — fator classificado por Barrigossi como especulativo — o repasse ao varejo reforça o encarecimento do transporte individual e altera decisões de consumo.
Enquanto o setor produtivo busca alternativas para mitigar custos, outro ponto de atenção é o acordo de livre-comércio entre Mercosul e União Europeia, programado para começar a valer em 1.º de maio, mas ainda sujeito à ratificação pelos parlamentos de cada país. O tratado prevê redução gradual de tarifas de importação e, segundo o especialista, pode abrir novas oportunidades a segmentos estratégicos brasileiros. Ao mesmo tempo, a maior abertura ampliará a concorrência interna, exigindo ganhos de eficiência para que empresas nacionais sustentem participação de mercado. Itens como vinhos europeus tendem a chegar ao consumidor com tributos menores, pressionando produtores locais.
Para Barrigossi, a liberalização comercial, somada ao atual choque nos custos energéticos, reforça a necessidade de investimentos em logística e inovação. Sem melhorias em infraestrutura portuária, ferrovias e rodovias, o país corre o risco de perder competitividade exatamente quando se ampliam as possibilidades de acesso a novos parceiros comerciais. Por outro lado, a redução de barreiras pode estimular modernização tecnológica, atrair capital estrangeiro e beneficiar consumidores no longo prazo.
Com a continuidade das tensões no Oriente Médio e a persistência da volatilidade nos preços do petróleo, analistas mantêm a expectativa de pressão sobre combustíveis e, por consequência, sobre as cadeias de produção e distribuição brasileiras. Diante desse panorama, empresas do agronegócio, da indústria e do setor de serviços monitoram o comportamento do Brent e avaliam estratégias para absorver ou repassar os aumentos, enquanto aguardam definições sobre a implementação efetiva do acordo Mercosul-União Europeia.









