A mortalidade materna e infantil voltou ao centro do debate em Campo Grande na última quinta-feira (26), quando profissionais de diversas áreas da saúde avaliaram indicadores recentes e definiram novas ações para diminuir os óbitos relacionados à gestação, ao parto e ao período neonatal em Mato Grosso do Sul.
O encontro, denominado 1ª Reunião Ampliada 2026, foi promovido pelo Comitê Municipal de Prevenção da Mortalidade Materna, Infantil e Fetal. O grupo, criado em 2001, segue diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Ministério da Saúde ao analisar cada morte ocorrida, identificar falhas de atendimento e recomendar ajustes na rede assistencial. A reunião reuniu obstetras, pediatras, enfermeiros, epidemiologistas, gestores e representantes da atenção primária.
Dados globais apresentados no evento mostram que aproximadamente 700 mulheres morrem todos os dias no mundo em decorrência de complicações da gravidez ou do parto, número considerado elevado diante da disponibilidade de tecnologias de prevenção. No Brasil, o Ministério da Saúde estima que 92% das mortes maternas e infantis poderiam ser evitadas com acompanhamento adequado e diagnóstico precoce.
Em relação às gestantes, as principais causas de óbito permanecem constantes: pré-eclâmpsia, hemorragias e infecções. Entre os recém-nascidos, predomina a prematuridade, seguida de complicações relacionadas a doenças maternas, como hipertensão arterial e diabetes mellitus, além de episódios de sepse. Especialistas apontam que a maioria desses desfechos decorre de dificuldades no planejamento reprodutivo, início tardio do pré-natal e baixa adesão às consultas programadas.
O ginecologista e obstetra Paulo Saburo Ito, presidente do Comitê, abriu a sessão detalhando a função do colegiado na qualificação do cuidado oferecido às gestantes e aos bebês. Na sequência, Bruno Holsback Uesato, responsável pelo Serviço de Estatísticas Vitais (Sevital/Sesau), apresentou o panorama da mortalidade em Campo Grande em 2025, enquanto Daniela Cristina Guiotti, coordenadora do Núcleo de Apoio Especial à Saúde (NAES), descreveu a atuação do núcleo nos municípios do Estado.
Os relatórios consolidados revelam que, mesmo com avanços pontuais, persistem gargalos na linha de cuidado. A maioria dos óbitos analisados ocorreu entre mulheres que iniciaram o pré-natal após o primeiro trimestre ou que tiveram número insuficiente de consultas. Situações de referência tardia a serviços de maior complexidade e demora na identificação de sinais de agravamento também foram recorrentes.
Apesar dos desafios, a capital sul-mato-grossense registrou indicadores positivos em 2025. A taxa de gravidez na adolescência atingiu 9,58% dos nascidos vivos de mães entre 10 e 19 anos, o menor percentual da última década e inferior às médias estadual e nacional. O resultado foi atribuído à expansão da oferta de métodos contraceptivos de longa duração na rede municipal, ao fortalecimento da atenção primária e à melhoria do acompanhamento pré-natal.
Os participantes defenderam a integração permanente entre vigilância epidemiológica, qualificação profissional e acesso oportuno aos serviços de saúde. Entre as recomendações, destacam-se a ampliação de capacitações sobre manejo de emergências obstétricas, o monitoramento contínuo dos indicadores por equipes multiprofissionais e a adoção de protocolos unificados que facilitem a comunicação entre unidades básicas, maternidades e hospitais de referência.
Ao final da reunião, os especialistas reforçaram a necessidade de articulação entre municípios, Estado e União para garantir recursos, infraestrutura e pessoal capacitado. Segundo os integrantes do Comitê, transformar estatísticas em intervenções efetivas exige vigilância sistemática, investimento em educação permanente e fortalecimento da rede de atenção, medidas consideradas essenciais para reduzir mortes evitáveis e assegurar um início de vida mais seguro para mães e bebês em Mato Grosso do Sul.








