Investidores estrangeiros mantiveram posição dominante no mercado acionário brasileiro em 2025. De janeiro a dezembro, o grupo classificado pela bolsa como “não residente” girou pouco mais de R$ 2,8 trilhões no segmento de ações à vista, segundo levantamento da plataforma Datawise+, que integra dados da B3 e da Neoway para identificar o perfil de cada participante. O montante representa alta de 15% em relação ao volume somado no ano anterior.
O movimento reforça a relevância do capital internacional na liquidez da B3. Ao longo de 2025, 62% de todas as negociações com ações ordinárias e preferenciais tiveram origem em ordens de não residentes. Quando se consideram também outros instrumentos listados, como Brazilian Depositary Receipts (BDRs), fundos de índice (ETFs) e fundos imobiliários (FIIs), a movimentação desse público ultrapassou R$ 3,5 trilhões.
Meses de maior giro
A intensidade das operações variou ao longo do ano, mas se concentrou principalmente no segundo trimestre e no encerramento do período. Maio registrou o maior volume mensal, com R$ 263 bilhões. Em seguida vieram abril, com R$ 257 bilhões, e dezembro, com R$ 255 bilhões. O desempenho de dezembro, em especial, chamou a atenção porque superou em 6% o total de dezembro de 2024, sinalizando apetite consistente mesmo em ambiente tipicamente marcado por menor liquidez.
Nos demais meses, os valores oscilaram, mas permaneceram em patamar elevado, garantindo ao investidor estrangeiro a condição de participante mais ativo da bolsa brasileira ao longo de todo o calendário.
Carteira mais negociada
Em relação aos papéis preferidos, a ação mais transacionada pelos não residentes foi a da Vale (VALE3), com giro de R$ 197,7 bilhões. A posição de destaque reflete o peso da mineradora no índice de referência da bolsa, além de sua presença no mercado global de commodities.
A Petrobras aparece duas vezes na lista: a ação preferencial (PETR4) ocupou o segundo lugar no ranking anual, com R$ 154 bilhões, enquanto a ação ordinária (PETR3) ficou na oitava posição, com R$ 65,2 bilhões. Entre os bancos, Itaú Unibanco (ITUB4) surgiu em terceiro lugar, com R$ 130,6 bilhões, seguido por Banco do Brasil (BBAS3) e Bradesco (BBDC4), que movimentaram R$ 89 bilhões e R$ 83 bilhões, respectivamente.
Completam a relação das dez ações mais negociadas o papel da própria operadora da bolsa, B3 (B3SA3), com R$ 87,6 bilhões; Ambev (ABEV3), com R$ 77 bilhões; Weg (WEGE3), com R$ 65,1 bilhões; e Sabesp (SBSP3), com R$ 64 bilhões.
Participação crescente
A evolução anual confirma tendência de incremento gradual da participação estrangeira na bolsa desde 2023. Analistas consultados pela indústria atribuem o fluxo recorrente a fatores como liquidez global ainda elevada, atratividade de empresas brasileiras com exposição a commodities e políticas de distribuição de dividendos em setores como mineração, petróleo e bancos.
O levantamento da Datawise+ consolidou informações diárias de negócios realizados na B3 e classificou cada investidor conforme o cadastro na câmara de compensação. Foram considerados apenas os volumes do mercado à vista de ações, sem incluir compras e vendas de derivativos ou operações de balcão. Os demais instrumentos listados, embora fora do recorte principal, contribuíram para elevar o total movimentado pelo público estrangeiro para a faixa de R$ 3,5 trilhões.
Comparativo anual
Na comparação com 2024, o crescimento de 15% nas negociações à vista coincide com aumento semelhante no número de negócios eletrônicos processados pela bolsa. O dado sugere que o estrangeiro não apenas investiu valores maiores, mas também participou de forma mais frequente das negociações intradiárias, ampliando a liquidez dos principais papéis.
Enquanto isso, investidores locais, como pessoas físicas e institucionais domésticos, tiveram participação relativa menor no acumulado do ano. Ainda assim, mantiveram movimento relevante em segmentos como FIIs e small caps, onde o estrangeiro historicamente atua com menos intensidade.
Liquidez e efeito no mercado
A presença maciça de capital internacional costuma influenciar diretamente a formação de preços e a volatilidade dos papéis de maior peso nos índices. Empresas com maior free float e grande cobertura de analistas tendem a se beneficiar da liquidez adicional, o que pode reduzir spreads e facilitar a execução de ordens de grande volume.
O levantamento sinaliza, ainda, que a preferência por empresas consolidadas e com forte participação em índices globais permaneceu inalterada ao longo de 2025. Esse comportamento contribui para explicar a concentração das negociações em poucos nomes de alta capitalização, padrão semelhante ao observado em outros mercados emergentes.
Com base nos dados divulgados, a expectativa é de que o investidor estrangeiro continue exercendo papel decisivo na B3, especialmente em papéis de maior liquidez, enquanto fatores macroeconômicos, como política monetária internacional e preços das commodities, seguem no radar como principais determinantes do fluxo de capital para o mercado brasileiro.









