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Evento em Campo Grande discute gestão de risco e perspectivas para exportação de carne bovina

Produtores rurais, consultores e representantes da indústria frigorífica reuniram-se na quinta-feira, 19, no Sindicato Rural de Campo Grande, para acompanhar a etapa local do circuito Indicador do Boi DATAGRO na Estrada. O encontro, promovido pela DATAGRO em parceria com o Sistema Brasileiro do Agronegócio, integrou a programação nacional que percorre diferentes estados com o objetivo de alinhar informações entre os elos da cadeia da carne bovina e debater cenários de curto e médio prazos.

Durante a abertura, organizadores destacaram que Mato Grosso do Sul ocupa posição de destaque na produção de bovinos no país, circunstância que justifica a escolha da capital para sediar a edição. A conjuntura global marcada por volatilidade cambial, juros elevados e tensões geopolíticas foi apresentada como pano de fundo para as análises, que abordaram tanto o mercado doméstico do boi gordo quanto as oportunidades e riscos nas exportações.

O diretor de Pecuária da Sociedade Rural Brasileira e consultor da DATAGRO Financial, Luiz Roberto Zillo, concentrou sua participação na necessidade de cada propriedade estruturar uma estratégia própria de gestão de risco. Ele ressaltou que produtores vizinhos, mesmo com custos de produção semelhantes, podem adotar caminhos distintos em razão de diferenças na capacidade financeira, no perfil de endividamento e nos objetivos de comercialização. De acordo com o especialista, o primeiro passo é calcular com precisão a margem planejada, avaliando em seguida a tendência dos preços e as ferramentas de proteção disponíveis no mercado.

Nesse contexto, Zillo recomendou que a venda do gado ocorra sempre que o preço praticado no mercado atinja a rentabilidade prevista pelo pecuarista. Em períodos de valorização acentuada, o conselho é avançar gradualmente nas negociações para buscar uma média vantajosa. Já em momentos de baixa ou tendência frouxa, a orientação é acelerar a comercialização para reduzir perdas potenciais. Segundo o consultor, a disciplina na execução desses procedimentos contribui para preservar o fluxo de caixa e garantir a continuidade dos investimentos na fazenda.

O diretor de Assuntos Estratégicos da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (ABIEC), Julio Ramos, concentrou sua exposição na conjuntura internacional. Ele chamou atenção para a redução recente das cotas de importação definidas pela China, principal destino da carne bovina brasileira, e para a instabilidade observada no Oriente Médio. Na avaliação de Ramos, o setor possui experiência para lidar com ciclos de preço altos ou baixos, porém a incerteza resulta em maior dificuldade de planejamento. Por isso, argumentou, a coordenação entre pecuaristas, frigoríficos e demais integrantes da cadeia torna-se decisiva para atravessar o segundo semestre com menor risco de desequilíbrio.

Ramos ponderou que a decisão de reduzir o ritmo de abate como resposta a preços menos atrativos deve ser analisada com cautela. Caso o abate seja fortemente restringido no curto prazo, a recomposição de plantel pode exigir vários anos, comprometendo o atendimento futuro ao mercado externo. Diante desse quadro, ele defendeu planejamento de longo prazo alinhado ao comportamento da demanda internacional, com o objetivo de preservar a posição conquistada pelo Brasil no comércio global de proteína animal.

Representando a Sociedade Rural Brasileira e o grupo GPP, o consultor Beto Peres enfatizou a importância de os produtores participarem ativamente da formação de indicadores de mercado. Para ele, a transparência na divulgação de informações favorece a previsibilidade de preços e fortalece a imagem do país perante compradores estrangeiros. A integração proposta por Peres vai além da união entre indústria e pecuarista, envolvendo também instituições financeiras e entidades de classe para criar um ambiente de referência confiável.

Os debatedores convergiram ao afirmar que o engajamento coletivo contribui para mitigar efeitos de oscilações cambiais e flutuações de demanda em grandes destinos, como China e Estados Unidos. Além disso, a adoção de ferramentas de hedge foi apontada como alternativa viável para pecuaristas de diferentes portes protegerem margens em um cenário de juros elevados. O uso de contratos futuros ou opções de venda, por exemplo, pode estabelecer valores mínimos de receita, permitindo aos produtores focar no manejo do rebanho com menor exposição à variação diária dos preços.

Ao final das apresentações, organizadores reforçaram que o circuito Indicador do Boi DATAGRO na Estrada seguirá por outras regiões pecuárias do país ao longo do ano, recolhendo subsídios locais que alimentam relatórios sobre oferta, demanda e competitividade da carne bovina brasileira. A iniciativa pretende estimular decisões pautadas em dados técnicos, reduzir incertezas nas negociações e consolidar a participação do Brasil em mercados estratégicos, mesmo em um ambiente internacional sujeito a mudanças repentinas.

Com a conclusão da etapa de Campo Grande, a avaliação geral foi de que o diálogo contínuo entre produtores, indústria e entidades representativas permanece essencial para enfrentar um contexto global complexo. A adoção de estratégias de gestão de risco, o compartilhamento de indicadores setoriais e o planejamento conjunto foram elencados como pilares para assegurar rentabilidade ao pecuarista e manter a oferta de carne bovina adequada às demandas internas e externas.

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