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Exposição no MIS de Campo Grande transforma debate sobre feminicídio em linguagem artística

O Museu da Imagem e do Som (MIS), em Campo Grande, apresenta até 6 de março a mostra “O Grito que Ecoa”, coletivo de obras que coloca o feminicídio no centro da discussão cultural em Mato Grosso do Sul. A iniciativa ocupa o terceiro andar do Memorial da Cultura e da Cidadania, na Avenida Fernando Corrêa da Costa, 559, e permanece aberta ao público durante todo o período de exibição.

Concebida por 14 artistas mulheres do estado, a exposição articula diferentes linguagens — pintura, arte têxtil, objetos, instalação, performance, música e poesia — para expor múltiplas formas de violência dirigidas aos corpos femininos. Ao levar esse debate a um espaço institucional, o grupo procura transformar experiências de silenciamento em presença concreta, traduzindo vivências e denúncias em expressão plástica.

A curadoria é assinada por Sara Welter, que também participa como artista sob o pseudônimo Syunoi. O projeto surgiu de conversas dentro do Coletivo Dorcelina Folador, formado em 2020 por criadoras sul-mato-grossenses. O nome do coletivo homenageia Dorcelina Folador, vítima de feminicídio em Mundo Novo, fato que motivou as integrantes a refletirem sobre o tema e suas repercussões no estado e no restante do país. Ao todo, mais de dez artistas compõem o grupo, que utiliza a arte para relatar experiências pessoais e questionar estruturas patriarcais presentes no cotidiano.

Entre as participantes da mostra estão Bejona, Marcia Lobo Crochê, Vitória Lorrayne, Veryruim, Letícia Maidana, Terrorzinho, Kami, Sabrina Lima, Thalya Veron e Maíra Espíndola, além da própria Syunoi. Cada uma apresenta trabalhos inéditos ou adaptados especificamente para o espaço do MIS, compondo um panorama de técnicas e narrativas que reforçam a urgência do enfrentamento à violência de gênero.

A exposição representa a primeira etapa do projeto Nós Dissemos: Circuito de Arte Dorcelina Folador, que prevê ainda duas mostras adicionais em outros equipamentos culturais da capital sul-mato-grossense. A proposta integral conta com apoio financeiro da Política Nacional Aldir Blanc, mecanismo de fomento à cultura que viabilizou a produção e a montagem das obras.

Entre os destaques expostos está A Via Crucis do Corpo, criada por Sara Welter especialmente para “O Grito que Ecoa”. Realizado com nanquim, carvão e pastel seco, o trabalho apresenta a figura feminina de modo fragmentado, pendendo ora pelas mãos, ora pelos pés. A artista evidencia marcas de dilaceração e violência, deixando no tecido apenas a impressão do crime, recurso que simboliza a persistência dos efeitos do feminicídio sobre vítimas e comunidades.

A combinação de performances, sonoridades e elementos visuais propõe ao visitante uma imersão sensorial que reforça o caráter coletivo do luto e da resistência. Enquanto pinturas e esculturas retratam aspectos físicos das agressões, textos poéticos e composições musicais abordam esferas emocionais e simbólicas do problema, ampliando a reflexão sobre como o ciclo de violência se reproduz e afeta o cotidiano feminino.

O acesso à exposição é gratuito e indicado para público interessado em debates sobre direitos humanos, arte contemporânea e políticas de enfrentamento ao feminicídio. Informações adicionais podem ser solicitadas pelo telefone (67) 3316-9178.

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