As comemorações de fim de ano, marcadas por ceias, viagens e alterações na rotina familiar, trazem desafios específicos para a saúde da população idosa. O geriatra Marcos Blini Pereira aponta que o período amplia o risco de quedas, episódios de confusão mental e descompensação de doenças crônicas, exigindo planejamento prévio e acompanhamento próximo por parte das famílias.
De acordo com o especialista, mudanças aparentemente simples, como dormir mais tarde ou trocar o local das refeições, interferem no equilíbrio físico e emocional de pessoas acima de 60 anos, sobretudo daquelas com limitações motoras ou comprometimento cognitivo. A combinação de ambientes diferentes, maior quantidade de estímulos e interrupção de rotinas consolidadas pode desencadear quadros de agitação, desorientação e perda temporária da autonomia.
O consumo de bebidas alcoólicas é um dos pontos que merecem atenção imediata. Mesmo doses consideradas pequenas podem ter efeito acentuado em idosos frágeis ou com estabilidade comprometida. Alterações sutis no sistema de equilíbrio, provocadas pela ingestão de álcool, aumentam significativamente a probabilidade de quedas, principal causa de fraturas e internações nessa faixa etária. Além disso, o álcool pode agravar sintomas psiquiátricos em pessoas com demência, Parkinson ou outras doenças neurológicas.
A interação entre álcool e medicamentos controlados reforça a necessidade de vigilância. Blini Pereira ressalta que substâncias como benzodiazepínicos, usadas para ansiedade ou insônia, sofrem potencialização quando combinadas à bebida, elevando o risco de sonolência intensa, depressão respiratória e confusão. A orientação é evitar o consumo alcoólico ou, no mínimo, discutir previamente com o médico responsável qualquer flexibilização na rotina terapêutica.
Mudanças de ambiente também representam desafio relevante. Enquanto idosos saudáveis costumam adaptar-se sem grandes consequências a viagens curtas ou alterações de horário, quem vive com Alzheimer ou outras síndromes demenciais pode apresentar regressão de comportamento, agressividade e medo diante de locais desconhecidos. Para minimizar desconfortos, o geriatra sugere testar deslocamentos curtos antes de trajetos longos, manter objetos familiares por perto e preservar, sempre que possível, horários regulares de sono e alimentação.
O período festivo revela ainda sinais de declínio funcional que podem passar despercebidos no convívio diário. Visitas mais demoradas de parentes tendem a expor perda de peso, dificuldade para realizar tarefas domésticas ou lapsos de memória frequentes. Caso seja identificado afastamento das atividades habituais, hesitação ao caminhar ou necessidade crescente de ajuda para higiene pessoal, a recomendação é buscar avaliação médica logo após as festas, evitando agravamento de condições potencialmente reversíveis.
Com a chegada do novo ano, exames preventivos voltam ao centro das atenções. O geriatra orienta que o calendário de checagens laboratoriais e de imagem seja individualizado, levando em conta idade, histórico de doenças cardiovasculares, osteoporose e neoplasias. Em idosos muito avançados ou clinicamente frágeis, a prioridade deve recair sobre acompanhamento clínico contínuo, ajuste de medicamentos e estratégias para manutenção de mobilidade, em vez de rastreamentos exaustivos que nem sempre trazem benefício comprovado.
Manter-se ativo, física e mentalmente, permanece como pilar fundamental do envelhecimento saudável. A prática de caminhadas, alongamentos ou modalidades de baixo impacto contribui para fortalecimento muscular e prevenção de quedas. Atividades cognitivas, como leitura, jogos de tabuleiro e uso orientado de tecnologias, favorecem a memória e o raciocínio. Já o convívio social, seja em encontros presenciais ou virtuais, reduz o risco de depressão e favorece o senso de pertencimento, aspecto crucial para a qualidade de vida na terceira idade.
Entre os cuidados práticos recomendados para as festas estão: supervisionar a quantidade de álcool oferecida aos idosos, revisar as prescrições para evitar interações, estabelecer ambientes iluminados e livres de obstáculos, adaptar calçados antiderrapantes, planejar viagens com etapas de descanso e observar atentamente mudanças de comportamento. A adoção dessas medidas simples contribui para que o período festivo seja vivenciado com segurança, preservando a saúde e o bem-estar dos familiares mais velhos.









