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Fiéis católicos iniciam Quaresma com jejum, oração e solidariedade

A partir da Quarta-feira de Cinzas, católicos de todo o país retomaram práticas tradicionais de jejum, oração e caridade que marcam o início da Quaresma, período de 40 dias que se estende até a Quinta-feira Santa e antecede a celebração da Páscoa. Considerado um dos momentos centrais do calendário cristão, o ciclo quaresmal é apresentado pela Igreja como tempo de preparação espiritual, inspirado nos 40 dias vividos por Jesus em retiro no deserto.

Durante essas seis semanas, a orientação pastoral concentra-se em três pilares: jejum, oração e esmola. A prática do jejum costuma incluir a abstenção de carne, sobretudo na Quarta-feira de Cinzas e na Sexta-feira Santa, e pode ser estendida por toda a Quaresma. Muitos fiéis também optam por renunciar a doces, bebidas ou ao uso excessivo de redes sociais, entendendo a penitência como oportunidade de autocontrole e reflexão sobre prioridades pessoais.

Na Diocese de Três Lagoas e em demais dioceses brasileiras, paróquias preparam momentos de espiritualidade coletiva, como missas específicas, via-sacra e retiros, além de ações sociais voltadas a famílias em situação de vulnerabilidade. O propósito, segundo a orientação eclesial, é ligar a vida interior ao compromisso concreto com o próximo, reforçando que a caridade completa a tríade do caminho quaresmal.

Entre os praticantes, o técnico em contabilidade Clarindo Roman relata adotar a abstinência de carne ao longo de todo o período. Ele participa regularmente de celebrações litúrgicas e afirma que a disciplina alimentar o ajuda a manter o foco na dimensão espiritual da data. Já a camareira Adriana Rodrigues da Silva entende a Quaresma como oportunidade de fortalecer laços familiares; para ela, o clima de recolhimento favorece gestos de reconciliação e convivência em casa.

As reflexões propostas pelo Vaticano também dialogam com o cotidiano dos fiéis. Na mensagem para a Quaresma de 2026, o Papa Leão XIV destacou que o jejum pode ir além da esfera alimentar, sugerindo o “jejum da linguagem”. A orientação incentiva a redução de palavras agressivas, fofocas e manifestações de raiva, ampliando a compreensão de penitência para o âmbito das relações interpessoais. A proposta reforça a ideia de que o exercício da caridade começa nas atitudes diárias, inclusive na forma como cada um se comunica.

No Brasil, a Conferência Nacional dos Bispos (CNBB) lançou oficialmente a Campanha da Fraternidade 2026, que neste ano traz o tema “Fraternidade e Moradia” e o lema bíblico “Ele veio para morar entre nós” (Jo 1,14). O objetivo é promover a reflexão sobre o direito à moradia digna e estimular iniciativas de apoio a pessoas que vivem sem abrigo ou em condições inadequadas de habitação. Em Três Lagoas, paróquias já iniciaram arrecadações de materiais de construção e reuniões com entidades sociais para identificar demandas locais de famílias afetadas pelo déficit habitacional.

A campanha nacional costuma ser desenvolvida em três frentes. A primeira é de sensibilização, com encontros e material formativo que discutem a realidade habitacional brasileira. A segunda é de mobilização, incentivando gestos concretos de solidariedade, como mutirões de reforma e doações de itens essenciais a moradores em situação precária. A terceira, de incidência pública, envolve a articulação de lideranças católicas com poder público e organizações civis para defender políticas habitacionais inclusivas.

Além das ações diretamente ligadas ao tema da moradia, grupos de jovens, pastorais e movimentos leigos intensificam visitas a hospitais, asilos e instituições de acolhimento infantil durante a Quaresma. A lógica é unir a vivência litúrgica à prática da misericórdia, canalizando ofertas de tempo, trabalho voluntário e recursos materiais aos setores mais fragilizados da sociedade.

No âmbito litúrgico, o calendário prevê celebrações especiais às sextas-feiras, com destaque para a via-sacra, que recorda os passos de Jesus rumo ao Calvário. As leituras bíblicas desses dias enfatizam conversão, perdão e solidariedade, temas que convergem com as iniciativas sociais em curso. Na Quinta-feira Santa, quando se conclui a Quaresma, a Missa do Lava-Pés retoma simbolicamente o serviço ao próximo, marco que introduz o tríduo pascal.

Combinando ritos tradicionais, renúncias pessoais e projetos de apoio comunitário, a Quaresma de 2026 mobiliza milhões de fiéis em todo o país. A expectativa da Igreja é que o período resulte em renovação espiritual individual e em avanços concretos na promoção do direito à moradia digna, eixo central da campanha deste ano. Até a chegada da Páscoa, católicos permanecem engajados em práticas que buscam unir fé e responsabilidade social, em sintonia com os apelos da mensagem papal e das diretrizes da CNBB.

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