O Governo de Mato Grosso do Sul apresentou, nesta semana, a Coletânea MS Alfabetiza Indígena, primeiro conjunto de materiais didáticos elaborado especificamente para a alfabetização de crianças indígenas na língua Guarani-Kaiowá. A iniciativa integra o programa estadual MS Alfabetiza e tem como objetivo garantir que estudantes das comunidades do Cone Sul ingressem no 3º ano do Ensino Fundamental plenamente alfabetizados em sua língua materna.
A Secretaria de Estado de Educação (SED) desenvolveu o conteúdo em parceria com a Fundação de Apoio e Desenvolvimento da Educação Básica. Segundo a pasta, a distribuição inicial contempla mais de mil alunos matriculados em escolas municipais indígenas da região, entre elas a Escola Municipal Polo Indígena Mboeroy Guarani Kaiowá e a Escola Municipal Mboerenda Ypyrendy. A expectativa é ampliar o alcance gradualmente, de acordo com a demanda dos municípios.
O material foi concebido para atender crianças até o 2º ano do Ensino Fundamental, fase em que a aprendizagem da leitura e da escrita deve ser consolidada. A partir dessa etapa, a língua Guarani-Kaiowá passa a ser oferecida como disciplina específica, reforçando tanto o domínio linguístico quanto a preservação cultural.
A produção envolveu professores indígenas, pesquisadores da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD) e especialistas da Faculdade Intercultural Indígena (Faind). O processo considerou as variações dialetais, o contexto sociocultural dos alunos e as práticas pedagógicas já utilizadas nas aldeias. Cada unidade da coletânea inclui atividades de fonética, leitura de textos produzidos por autores locais, exercícios de escrita e orientações para docentes sobre metodologias de ensino bilíngue.
Para o secretário estadual de Educação, Hélio Daher, o lançamento representa um avanço concreto na política de educação indígena do Estado. Ele ressaltou que a inexistência, até então, de um recurso pedagógico estruturado em Guarani-Kaiowá dificultava a escolarização na idade adequada e comprometia a equidade entre as redes de ensino.
A professora indígena Katiuce Cáceres Nelson, que participou da redação dos cadernos, explicou que o trabalho começou há cerca de dois anos, quando a proposta foi incorporada ao currículo do MS Alfabetiza. Durante o período, grupos de docentes percorreram aldeias para coletar vocabulário, registrar narrativas tradicionais e validar a ortografia padronizada utilizada nos exercícios.
Além de servir de suporte às aulas, a coletânea pretende fortalecer a autoestima dos estudantes ao valorizar a língua que falam em casa. O cacique Flaviano Franco, presente na cerimônia de apresentação, afirmou que o recurso contribui para a manutenção dos valores transmitidos pelos antepassados e para a construção de uma trajetória escolar mais sólida.
O lançamento ocorreu durante o I Seminário Estadual do MS Alfabetiza, realizado em Campo Grande. O encontro reuniu prefeitos, secretários municipais de educação e gestores escolares para discutir metas de alfabetização na idade certa, prevista para o final do 2º ano. No evento, técnicos da SED detalharam o plano de acompanhamento do uso da coletânea, que inclui formação continuada de professores e monitoramento de resultados por meio de avaliações regionais.
Tania Milene Nugoli, coordenadora de Modalidades Específicas da SED, destacou que o projeto reforça o compromisso da rede pública com uma educação intercultural e inclusiva. Ela lembrou que Mato Grosso do Sul abriga diferentes etnias, cada qual com necessidades diferenciadas, e que políticas de materiais próprios são essenciais para assegurar o direito à aprendizagem de todos os estudantes.
Em um primeiro momento, os cadernos serão distribuídos gratuitamente às escolas municipais indígenas do Cone Sul. A secretaria informou que novas tiragens estão previstas para atender outras regiões do Estado onde há presença de estudantes Guarani-Kaiowá. Paralelamente, equipes pedagógicas vão colher feedback de professores e alunos para aperfeiçoar futuras edições.
Embora focada na alfabetização, a iniciativa também engloba componentes de formação cidadã. Os textos selecionados abordam temas como meio ambiente, história local e organização comunitária, buscando articular a aprendizagem da língua a conteúdos de relevância para o cotidiano dos alunos. Dessa forma, o governo espera elevar não apenas indicadores de leitura e escrita, mas também o engajamento das crianças nas atividades escolares.
Com a entrega da Coletânea MS Alfabetiza Indígena, Mato Grosso do Sul torna-se o primeiro estado brasileiro a disponibilizar um conjunto didático completo em Guarani-Kaiowá para as séries iniciais da educação básica. A SED informou que continuará acompanhando a implementação do material e deverá publicar relatórios semestrais sobre o desempenho dos estudantes, a fim de ajustar estratégias pedagógicas e garantir que a alfabetização na língua materna avance conforme os objetivos estabelecidos pelo programa.








