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Homem mata dois filhos e se suicida em Itumbiara; caso gera discussão sobre violência de gênero e responsabilização da vítima

Um duplo homicídio seguido de suicídio registrado em Itumbiara, no sul de Goiás, voltou a colocar em evidência a relação entre controle, violência doméstica e feminicídio. De acordo com as informações apuradas, um homem matou os dois filhos menores de idade e, em seguida, tirou a própria vida. Antes do ato, ele deixou uma carta em que alegou ter sido traído, pediu perdão e tentou justificar a decisão que resultou na morte das crianças.

A Polícia Civil trata o caso como infanticídio duplo consumado, encerrado com suicídio do autor. A carta manuscrita, recolhida no local pelos peritos, é analisada para auxiliar na compreensão da motivação, mas investigadores já consideram que o conteúdo reforça a hipótese de crime premeditado como forma de punir a companheira. Até a conclusão deste texto, não havia indícios de participação de terceiros nem de que o homem enfrentasse distúrbios mentais comprovados.

Na avaliação dos agentes, a narrativa apresentada pelo pai nas páginas deixadas no endereço da família indica um histórico de ciúme e tentativa de controle sobre a companheira. Testemunhas relataram aos policiais que o relacionamento apresentava episódios de discussão frequente, motivados pelo inconformismo do homem diante da possibilidade de separação. A investigação pretende reunir elementos que confirmem se houve ameaças anteriores e se a mulher chegou a buscar ajuda formal antes do crime.

O episódio gerou intensa repercussão em redes sociais. Parte dos comentários voltou-se contra a mãe das crianças, questionando por que ela não teria saído de casa ou evitado o desfecho violento. Diversos perfis insinuaram corresponsabilidade da mulher, atribuindo-lhe parcela de culpa pela ação do companheiro. A reação virtual provocou manifestações de entidades de defesa dos direitos das mulheres, que classificaram esse tipo de julgamento como revitimização.

Entre as vozes que se posicionaram publicamente está o Movimento Mulheres Cuidando de Mulheres. A fundadora da organização, Danda Coelho, repudiou a interpretação que transfere para a mulher a responsabilidade por atos cometidos contra ela e contra os filhos. Na análise da ativista, o crime não pode ser descrito como tragédia inevitável, gesto de amor ou resultado de desespero, mas sim como ato deliberado de violência destinado a exercer poder e deixar uma marca permanente de sofrimento.

Especialistas ouvidos pela reportagem explicam que feminicídios e crimes correlatos tendem a surgir em ciclos que se iniciam ainda em fases de controle psicológico. O processo costuma incluir vigilância de rotinas, restrições a amizades, ataques à autonomia financeira e manipulações emocionais. Embora o assassinato seja o ápice, sinais de ameaça podem aparecer muito antes, geralmente ignorados ou relativizados pelo entorno social.

No caso de Itumbiara, a utilização dos próprios filhos como instrumento de retaliação expõe uma das facetas extremas desse ciclo. Para profissionais que atuam na área de proteção, quando o agressor percebe a perda de ascendência, a escalada pode envolver a instrumentalização das crianças, seja por chantagem, seja, em situações extremas, pela violência direta contra elas. A conduta revela lógica de posse, não de afeto, avaliam estudiosos.

Organizações que acompanham o caso oferecem assistência psicológica e jurídica à mãe, considerada vítima direta da violência. O Movimento Mulheres Cuidando de Mulheres informou que permanece em contato com ela para minimizar a exposição pública e para evitar que o luto seja agravado por pressões externas. O grupo sustenta que responsabilizar a mulher fortalece a cultura de impunidade dos agressores e dificulta a ruptura de relações abusivas, já que potenciais vítimas temem ser culpadas caso peçam ajuda.

Além da repercussão social, o episódio reacende o debate sobre políticas de prevenção. Profissionais da segurança e da assistência social defendem investimentos em canais de denúncia, acolhimento imediato de mulheres ameaçadas e acompanhamento sistemático de suspeitos de violência doméstica. Para eles, romper o ciclo antes da progressão para crimes mais graves depende de intervenção rápida e do reconhecimento de que agressões verbais e psicológicas podem evoluir.

Enquanto prosseguem as apurações formais, a mãe das crianças tenta lidar com a perda dos filhos e com a exposição decorrente do caso. Entidades de defesa dos direitos humanos alertam que, além das consequências emocionais, mulheres nessa situação frequentemente enfrentam processos de culpabilização pública que dificultam o acesso a redes de apoio. Especialistas sublinham que não existe justificativa legítima para violência praticada em nome de ciúme ou frustração, reforçando que a responsabilidade penal e moral recai integralmente sobre o autor.

O inquérito deve ser concluído nos próximos dias, embora o suicídio do agressor encerre a possibilidade de responsabilização criminal direta. Ainda assim, a polícia pretende finalizar o relatório com detalhes sobre a dinâmica familiar, buscando elementos que ajudem a esclarecer se falhas no sistema de proteção contribuíram para o resultado fatal. Os dados coletados poderão subsidiar ações preventivas e políticas públicas voltadas à identificação precoce de comportamentos de controle que antecedem a violência física.

Em paralelo, movimentos sociais insistem que a sociedade tem papel decisivo ao não minimizar manifestações de possessividade e ao evitar a culpabilização de vítimas. Para essas organizações, compreender o feminicídio como fenômeno que se inicia no controle e se consuma na violência extrema é passo essencial para reduzir casos semelhantes e interromper o ciclo que transformou a autonomia feminina em motivo de agressão.

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