O Hospital Cassems, em Campo Grande (MS), passou a incorporar de forma rotineira a craniotomia com paciente acordado em seus procedimentos de alta complexidade. A técnica, conduzida recentemente pela equipe do neurocirurgião Paulo Henrique Zanin e já agendada para novos casos, permite retirar lesões cerebrais situadas em regiões responsáveis por funções vitais sem comprometer fala ou mobilidade.
No método tradicional, o paciente permanece sedado durante todo o ato cirúrgico. Na modalidade acordada, a sedação é parcial e controlada, mantendo o cérebro ativo para que a equipe teste, em tempo real, áreas que coordenam linguagem e movimento. Segundo o hospital, a indicação é considerada imprescindível quando o tumor ou a malformação está localizado nas chamadas “zonas eloquentes” – porções do córtex onde pequenos danos podem resultar em sequela permanente.
De acordo com Zanin, a posição das estruturas cerebrais varia de pessoa para pessoa, o que torna arriscado operar sem feedback imediato do paciente. Enquanto órgãos como o fígado mantêm localização e função previsíveis, áreas cerebrais de linguagem podem estar à direita, à esquerda ou em regiões intermediárias. “Para funções motoras conseguimos avaliar com estímulos elétricos mesmo com o paciente sob efeito de anestesia total; para a fala, a avaliação necessita da interação verbal do próprio paciente”, explica o especialista.
Para guiar a intervenção, a equipe recorre à neuronavegação, sistema comparado a um “GPS intracraniano”. Imagens obtidas antes da cirurgia são associadas a sensores instalados no crânio, permitindo que o cirurgião visualize, em três dimensões, o ponto exato da lesão e seu entorno. A precisão milimétrica reduz o tempo de exposição do tecido sadio e limita a intervenção à área estritamente necessária.
Durante todo o procedimento, neurofisiologistas acompanham sinais elétricos emitidos pelo cérebro e pela medula. Potenciais evocados, eletromiografia e outros exames são processados continuamente, oferecendo alerta imediato sobre qualquer alteração funcional. Caso um estímulo indique risco de dano, o cirurgião recebe a informação em tempo real e ajusta a estratégia, evitando lesões irreversíveis.
Para avaliar linguagem e cognição, o paciente realiza tarefas simples enquanto o centro cirúrgico executa a ressecção. Tablets exibem imagens, palavras ou frases que o indivíduo deve nomear, repetir ou classificar. A escolha dos testes varia conforme a área cerebral em foco: se o risco recai sobre a compreensão oral, costuma-se solicitar identificação de figuras; quando a produção de fala está ameaçada, pede-se repetição de sentenças. Caso ocorra dificuldade repentina, a equipe interrompe a retirada de tecido naquela região e busca rota alternativa de acesso.
Embora possa soar desconfortável, o procedimento não causa dor, pois o cérebro carece de receptores dolorosos. A anestesia atinge apenas o couro cabeludo, a musculatura externa e as meninges superficiais, garantindo analgesia suficiente para que o paciente permaneça desperto, porém sem sentir estímulos internos. Monitorização hemodinâmica e psicológica é mantida para assegurar estabilidade emocional e fisiológica durante todo o ato.
O objetivo principal é combinar a maior remoção possível da lesão com a preservação integral de fala, coordenação motora e outras funções críticas. Resultados iniciais no hospital indicam tempo de permanência reduzido em unidade de terapia intensiva e recuperação neurológica mais rápida em comparação com intervenções realizadas sob anestesia geral.
Para a direção da Cassems, a repetição bem-sucedida de cirurgias desse tipo consolida o serviço como referência regional em procedimentos neurológicos complexos. O hospital destaca ainda que a abordagem soma recursos modernos, equipe treinada e protocolos específicos de assistência, ampliando o acesso da população de Mato Grosso do Sul a técnicas presentes nos principais centros do país.
Novas craniotomias com paciente acordado estão previstas para as próximas semanas, mantendo o acompanhamento multidisciplinar que envolve neurocirurgia, neurofisiologia, anestesiologia e enfermagem especializada. A expectativa é que o método se torne padrão para casos em que a localização da lesão exija monitoramento funcional contínuo, com foco na qualidade de vida pós-operatória.









