O bloqueio realizado por indígenas no Anel Viário de Dourados, trecho compreendido entre a Avenida Guaicurus e a rodovia MS-156, foi encerrado na tarde desta sexta-feira (12). A interrupção começou na tarde de quinta-feira (12) como forma de protesto contra a proposta do Marco Temporal e chegou a ser retomada às 7h da manhã do dia seguinte, mas foi desfeita horas depois, após o início de uma chuva.
De acordo com as informações divulgadas, o protesto tinha como foco a votação do Marco Temporal, dispositivo que prevê restringir a demarcação de terras indígenas aos territórios ocupados por povos originários em 5 de outubro de 1988, data da promulgação da Constituição Federal. Para os manifestantes, a medida inviabiliza o reconhecimento de áreas tradicionalmente reivindicadas pelos grupos que vivem fora dos limites fixados naquele momento histórico.
A mobilização em Dourados ganhou destaque por ocorrer em um ponto estratégico de ligação entre importantes vias da região sul-matogrossense. O Anel Viário conecta o perímetro urbano de Dourados a rodovias estaduais e federais, e a interdição do segmento entre a Avenida Guaicurus e a MS-156 provocou lentidão no tráfego terrestre enquanto vigorou. O fluxo de veículos ficou parcialmente comprometido durante a tarde de quinta-feira, sofreu nova interrupção na manhã de sexta-feira e voltou a ser normalizado apenas quando os manifestantes decidiram liberar a pista no início da tarde.
A chuva que se formou sobre o município foi apontada como fator determinante para a dispersão do grupo e a consequente liberação da rodovia. Até o momento do desbloqueio, não houve registro oficial de confrontos ou incidente grave envolvendo motoristas ou integrantes da mobilização. Após a saída dos manifestantes, o tráfego foi reaberto sem a necessidade de operação especial de desvio.
Dourados abriga a maior reserva indígena em área urbana do Brasil, com população estimada em cerca de 20 mil pessoas. Esse contingente supera o número de habitantes registrados em 42 dos 79 municípios do estado de Mato Grosso do Sul. A presença expressiva de comunidades originárias torna a cidade um ponto de constante mobilização em torno de pautas relacionadas a demarcação, saúde indígena e acesso a políticas públicas.
O bloqueio ocorreu em um setor próximo à aldeia Bororó, rodeado por ocupações surgidas após 1988, conhecidas localmente como “retomadas”. Estas áreas representam tentativas de reocupar territórios que, segundo os indígenas, pertenciam tradicionalmente aos seus antepassados antes da vigência do marco constitucional. A escolha do local para o protesto buscou chamar atenção para a situação dessas retomadas, que ficariam fora de futuras demarcações caso o Marco Temporal seja aprovado nos moldes debatidos.
Embora a manifestação tenha sido encerrada, os participantes indicaram que permanecem atentos ao andamento da votação no Congresso Nacional. Lideranças que acompanharam a mobilização afirmam que novas ações podem ocorrer se o texto avançar sem contemplar reivindicações dos povos indígenas.
O debate sobre o Marco Temporal é acompanhado de perto por comunidades de todo o país. Defensores da tese argumentam que a fixação da data de 5 de outubro de 1988 oferece segurança jurídica a proprietários rurais e ao Estado. Já as organizações indígenas e suas representações consideram que a medida ignora processos de expulsão e deslocamento forçado sofridos antes da Constituição, limitando o direito de recomposição territorial.
No caso específico de Dourados, o tema tem impacto direto em centenas de famílias que residem tanto na reserva oficialmente reconhecida quanto nas ocupações adjacentes. Essas áreas periféricas, ampliadas ao longo das últimas décadas, cresceram justamente após 1988 e concentram demandas por regularização fundiária e infraestrutura básica.
Com o fim do bloqueio, o trânsito no Anel Viário voltou à normalidade no meio da tarde. Não há, até o momento, sinalização de novos pontos de interdição no município. O episódio, porém, reforça o clima de tensão em torno da votação do Marco Temporal e a possibilidade de novas mobilizações caso o projeto avance sem alterações.
As discussões no Congresso ainda não têm data definida para conclusão, e a expectativa de comunidades indígenas é de que o tema continue a gerar manifestações em diferentes regiões do país. Em Dourados, a proximidade física entre áreas tradicionais e zonas urbanas mantém a pauta no centro da agenda local, tanto para lideranças indígenas quanto para autoridades municipais e estaduais.
Por ora, a liberação total do trecho entre a Avenida Guaicurus e a MS-156 permite o restabelecimento do fluxo de pessoas e mercadorias na região, ao mesmo tempo em que mantém em evidência a reivindicação dos povos originários contra o Marco Temporal.









