Irregularidades no regime de chuvas entre 2020 e 2024 resultaram em prejuízos estimados em R$ 1,5 bilhão para produtores de soja de 16 municípios do entorno de Dourados (MS). O cálculo, apresentado pelo pesquisador Júlio Cesar Salton, da Embrapa Agropecuária Oeste, baseia-se no preço médio de R$ 120 por saca e foi divulgado durante o Simpósio de Agricultura realizado nesta segunda-feira (11), na 60ª Expoagro.
Volume de chuva e impacto na produtividade
Segundo Salton, janeiro e fevereiro concentram as fases mais sensíveis do ciclo da soja, mas apresentam variações significativas de precipitação a cada ano. Na safra 2021/22, por exemplo, o acumulado não alcançou 100 mm nesses dois meses, o que limitou a produtividade média regional a cerca de 1,5 t/ha. A relação histórica analisada entre 1988 e 2024 indica que cada milímetro de chuva representa incremento aproximado de 4,5 kg de grãos por hectare.
O pesquisador ressaltou que episódios semelhantes foram registrados em outras temporadas, como 2003 e 2004, sinalizando padrão recorrente de déficit hídrico no período crítico da cultura. “Se o comportamento já é conhecido, é preciso ampliar ações de manejo que reduzam os efeitos da escassez”, alertou.
Manejo do solo altera disponibilidade de água
Dados comparativos de balanço hídrico apresentados no simpósio mostram que sistemas convencionais, caracterizados por revolvimento frequente do solo, alcançam condição de déficit mais rapidamente. Em contrapartida, estratégias como plantio direto e integração lavoura-pecuária mantêm maior umidade no perfil, retardando a limitação hídrica e favorecendo a formação de lavouras mais produtivas.
As práticas de conservação do solo foram destacadas como fundamentais para reduzir a exposição a episódios de veranico — principal gargalo produtivo na porção centro-sul de Mato Grosso do Sul. Além de aumentar a eficiência no uso da água da chuva, esses sistemas elevam a rentabilidade ao minimizar perdas decorrentes de estresse hídrico.
Zoneamento Agrícola ajusta classificação de solos
O Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc) passou a incorporar recomendações específicas de nível de manejo justamente para estimular a adoção de tecnologias que elevem a capacidade de armazenamento de água no solo. De acordo com o pesquisador Éder Comunello, também da Embrapa Agropecuária Oeste, a classificação de solos, antes restrita a arenoso, misto e argiloso, foi ampliada há três anos para seis categorias. O objetivo é refinar a análise da disponibilidade hídrica e indicar janelas de plantio com menor risco fisiológico.
Outra alteração recente do Zarc foi a atualização da base climatológica, agora abrangendo o período de 1992 a 2022. A revisão considera o aquecimento observado nas últimas décadas e a maior irregularidade na distribuição das chuvas, permitindo que produtores adequem calendários de semeadura com maior precisão.
Embora não seja obrigatório, o zoneamento é amplamente utilizado por seguradoras agrícolas para definir cobertura, reduzindo a exposição financeira de produtores diante dos custos elevados de produção. Comunello pondera que o sistema não elimina riscos, mas diminui significativamente a probabilidade de perdas expressivas.
Irrigação como ferramenta empresarial
Para o presidente do Grupo Plantio na Palha, Mário José Maffini, a agricultura empresarial exige retorno compatível ao capital investido. Nesse contexto, irrigação, manejo adequado de solo, adubação criteriosa e plantio no período recomendado formam o conjunto de ações que garantem viabilidade econômica aos empreendimentos. Maffini avalia que, diante da frequência de veranicos, existe potencial para expansão da irrigação na região, favorecida pela disponibilidade de recursos hídricos.
Cobrança pelo uso da água em debate
A irrigação já representa parcela significativa da captação hídrica regional. Leonardo Ramos, presidente do Comitê da Bacia do Rio Ivinhema, informou que o setor consome volume superior ao somatório de outras atividades urbanas e industriais. Durante o simpósio, ele apresentou estudo preliminar sobre a cobrança pelo uso da água, previsto na política nacional há quase três décadas.
A proposta em discussão prevê isenção para usuários com consumo anual de até R$ 500, equivalente a média de 400 m³ por dia. Ramos argumenta que a cobrança, se bem estruturada e gerida por agência responsável, permitirá reinvestir os recursos arrecadados em ações de preservação e gestão dentro da própria bacia hidrográfica.
O grupo de trabalho encarregado de detalhar o modelo, composto por representantes do poder público, sociedade civil e usuários, reúne-se em 27 de maio na sede do Parque Estadual das Várzeas do Rio Ivinhema para definir a coordenação das atividades.
Sustentabilidade e novos mercados
Além de palestras sobre manejo hídrico, o Simpósio de Agricultura incluiu discussões sobre créditos de carbono, ressaltando oportunidades de diversificação de receitas para produtores que adotam práticas sustentáveis. As apresentações indicaram que aumentar a resiliência climática e atender às exigências ambientais pode abrir portas para novos mercados e fontes de financiamento.
Os organizadores reforçaram a necessidade de integração entre pesquisa, políticas públicas e iniciativas privadas para enfrentar os desafios impostos pela variabilidade climática. O prejuízo calculado de R$ 1,5 bilhão nas últimas cinco safras ilustra a urgência de medidas que aumentem a eficiência no uso da água e assegurem níveis consistentes de produtividade na região de Dourados.









