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Juros altos e pressões sobre margens complicam planejamentos de longo prazo, avalia diretor da Girassol Agrícola

Desafios para alocar capital em meio a juros elevados e margens mais estreitas pautaram o Amcham CEO Dinner, encontro realizado em Campo Grande durante a 8ª edição do RCN em Ação. Reunidos no evento iniciado pelo Grupo RCN em parceria com a Amcham Mato Grosso do Sul, executivos discutiram como preservar crescimento e sustentabilidade num cenário econômico marcado por custos financeiros crescentes e incertezas prolongadas.

No painel principal, o diretor-executivo da Girassol Agrícola, Gilmar Meneghini, concentrou-se nos impactos diretos desse ambiente sobre projetos do agronegócio e da produção florestal. Segundo o dirigente, iniciativas nessas áreas exigem horizontes de 10 a 15 anos até maturação, exigindo investimentos consideráveis ainda na largada. “A única certeza ao planejar para mais de uma década é que grande parte do que foi projetado não ocorrerá exatamente como previsto”, observou.

Pressão de custos e ciclos prolongados

Meneghini detalhou que operações florestais ou em culturas perenes podem demandar entre R$ 14 mil e R$ 15 mil por hectare, enquanto o retorno financeiro só aparece após cerca de sete anos. Com a elevação da taxa básica de juros, o custo de capital encarece, alongando o ponto de equilíbrio dos projetos e ampliando o risco de eventuais revisões de rota. “Hoje, as decisões de investimento ficaram muito mais difíceis”, resumiu.

O executivo lembrou que fazendas ou florestas comerciais não permitem ajustes rápidos caso as variáveis de mercado se deslocem abruptamente. Uma vez plantado, o ativo permanece no solo até o fim do ciclo e requer manutenção permanente. Dessa forma, fatores como volatilidade cambial, preços de commodities, insumos agrícolas e clima ampliam a imprevisibilidade durante todo o período.

Governança e gestão de caixa como salvaguardas

Diante desse conjunto de riscos, Meneghini defendeu o fortalecimento dos mecanismos de compliance, auditoria e controle orçamentário nas empresas do setor. Para ele, conhecer diariamente a posição de caixa e a origem de potenciais prejuízos é decisivo para evitar rupturas financeiras. “Às vezes o problema de uma empresa não é o resultado, é o caixa. Se você não sabe de onde vem o prejuízo ou por que ele acontece, aí as empresas quebram”, afirmou ao público presente.

Ele ressaltou ainda que projetos de ciclo longo precisam ser continuamente recalibrados à luz de indicadores como custo de oportunidade, endividamento em moeda estrangeira, disponibilidade de crédito rural e apetite de fundos de investimento pelo agronegócio. Dessa maneira, a governança atua como ferramenta de antecipação de cenários adversos, reduzindo a probabilidade de renegociações emergenciais de dívida ou interrupções de cronograma.

Decisões técnicas versus hierarquia

Outro ponto salientado no debate foi a necessidade de a tomada de decisões estratégicas basear-se em análise técnica e discussão interna ampla. Meneghini avaliou que, quando escolhas recaem unicamente sobre a posição hierárquica de um gestor, o nível de risco se eleva. “O argumento precisa ser maior que a hierarquia”, defendeu, sugerindo que as organizações adotem fóruns técnicos permanentes para avaliar cenários macroeconômicos, viabilidade de novos cultivos e gestão de passivos.

Na prática, essa postura exige coletar dados de produtividade, custos operacionais, clima e mercado, submetendo tudo a comitês que reúnam diferentes áreas — finanças, operações, comercial e sustentabilidade. O objetivo, explicou, é somar percepções antes de imobilizar volumes expressivos de capital que só serão recuperados a longo prazo.

Abertura do calendário empresarial de 2026

O Amcham CEO Dinner marcou a abertura do calendário empresarial de 2026 do RCN em Ação. A programação contemplou ainda painéis sobre inovação em cadeias produtivas, logística regional e perspectivas de exportação para o Centro-Oeste. Dirigentes de segmentos como celulose, grãos, carne bovina e serviços financeiros estiveram presentes, reforçando a transversalidade das discussões sobre custo de capital.

Embora o encontro tenha enfatizado as dificuldades atuais, os participantes apontaram que a consolidação de boas práticas de gestão e o engajamento de investidores institucionais permanecem cruciais para viabilizar projetos rurais de grande porte. Mesmo sob juros elevados, ativos vinculados à terra, energia e reflorestamento seguem recebendo atenção, sobretudo quando associados a certificações de sustentabilidade e a contratos de longo prazo para venda da produção.

Ao final do debate, executivos convergiram na avaliação de que estruturar capital próprio, combinar financiamentos indexados a indicadores de inflação e buscar instrumentos de mercado de capitais — como CRA e CPR — são caminhos para mitigar o impacto do custo financeiro. Ainda assim, salientaram que a disciplina na gestão operacional continua sendo o principal diferencial na travessia de ciclos econômicos mais restritivos.

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