A chegada de leite subsidiado da Argentina e as indefinições sobre a reforma tributária aumentam a tensão no campo de Mato Grosso do Sul, ao passo que a valorização da arroba do boi gordo abre espaço para ganhos na pecuária de corte. Esse contraste marca o atual cenário do agronegócio estadual, em que custos elevados e mudanças fiscais coexistem com oportunidades de mercado.
Importação achata preço do leite
De acordo com o presidente do Sindicato Rural de Campo Grande, Eduardo Monreal, lotes de leite argentino têm ingressado no Brasil por valores que correspondem a aproximadamente 50% do praticado no país vizinho. O diferencial de preço vem comprimindo a remuneração ao produtor sul-mato-grossense, que perde competitividade nas negociações internas.
Monreal relata que, diante da redução de receitas, muitos produtores enfrentam dificuldades para honrar compromissos financeiros, como parcelas de investimento, salários de funcionários e aquisição de insumos. Para mitigar o impacto, o sindicato levou a preocupação ao governo estadual e propôs medidas de incentivo, entre elas a priorização de compras governamentais de produtos lácteos locais.
A pressão sobre a cadeia leiteira ocorre em um momento de custos altos com ração, energia e logística. Sem políticas de proteção ou subsídios robustos, a margem do produtor se estreita, elevando o risco de redução de plantel e de abandono da atividade em pequenas propriedades.
Pecuária de corte vive momento favorável
Enquanto a atividade leiteira enfrenta recuo de preços, a bovinocultura de corte apresenta reação positiva. Após um ciclo de abate expressivo de fêmeas, a oferta de bezerros começou a encolher, cenário que sustenta a alta da arroba.
Negócios recentes em Mato Grosso do Sul registraram valores entre R$ 335 e R$ 340 por arroba, patamar acima das referências anteriores no estado. Segundo Monreal, o avanço cria uma “janela” para recompor caixa e realizar investimentos estratégicos nas fazendas.
Apesar do otimismo, o dirigente rural recomenda cautela. Ele lembra que o ciclo pecuário varia de quatro a seis anos e exige planejamento. Produtores são orientados a direcionar parte dos ganhos para melhoria de pastagens, aquisição de suplementos e estruturação de reservas forrageiras, especialmente com a aproximação do período seco.
O encarecimento do bezerro, porém, reduz a margem dos invernistas — pecuaristas que compram animais jovens para engorda. Além disso, o confinamento passa a demandar mais capital em virtude do maior desembolso na reposição do gado e do preço da alimentação.
Reforma tributária gera incertezas
Outro ponto de apreensão no meio rural é a regulamentação da reforma tributária. A partir de abril, a alíquota do Fundo de Assistência ao Trabalhador Rural (Funrural) sobe de 1,5% para 1,65% sobre a receita bruta da comercialização. Paralelamente, permanece indefinida a alíquota geral do futuro imposto sobre consumo, que substituirá tributos como PIS, Cofins e ICMS.
Para o Sindicato Rural, a adoção de um sistema de débito e crédito tributário exigirá adaptação mensal dos produtores, que precisarão compreender a dinâmica para evitar desembolsos adicionais. Questões específicas de arrendamento, parcerias rurais e tributação de pessoas jurídicas também estão em debate, aumentando a complexidade do novo marco fiscal.
Monreal avalia que, sem clareza sobre alíquotas e possíveis créditos, o risco é de elevação da carga tributária em um segmento já pressionado por custos de produção, volatilidade cambial e ausência de ampla política de subsídios. Para ele, o produtor rural necessita de previsibilidade para planejar investimentos de longo prazo em tecnologia, genética e infraestrutura.
Decisões estratégicas em ambiente de transição
Entre a concorrência externa, o ciclo pecuário e as mudanças fiscais, o agronegócio de Mato Grosso do Sul atravessa um período de transição. Na avaliação do sindicato, as decisões tomadas agora — seja para ampliar ou reduzir rebanho, reformar pastagens ou diversificar atividades — terão impacto direto no desempenho econômico das próximas safras.
No segmento leiteiro, a articulação com governos estadual e federal em busca de instrumentos de defesa comercial e programas de compra pública pode determinar a permanência de pequenos produtores na atividade. Já na pecuária de corte, a estratégia passa por equilibrar investimento em estrutura com a liquidez gerada pelos atuais preços da arroba, sem desconsiderar a possibilidade de reversão do ciclo.
Enquanto aguarda definições sobre a reforma tributária, o setor rural do estado mantém o foco na gestão de custos e na ampliação da eficiência produtiva. A orientação de especialistas é acompanhar de perto as mudanças regulatórias, reforçar controles financeiros e aproveitar oportunidades de mercado, preservando a sustentabilidade econômica em um ambiente marcado por incertezas e rápidas oscilações.









