Brasília – Imagens de satélite processadas por inteligência artificial revelam como a ocupação do território brasileiro mudou nas últimas quatro décadas. O novo estudo do MapBiomas, divulgado nesta quarta-feira (10), comparou dados de 1985 a 2024 e apontou expansão expressiva da agricultura, variação na produtividade das pastagens e pressões diferentes sobre os biomas do país.
Pastagens continuam dominantes, mas vigor ainda preocupa
Atualmente, as áreas de pastagem somam 155 milhões de hectares em todo o Brasil. Desse total, aproximadamente 34 milhões de hectares, o equivalente a 22%, apresentam baixo vigor, caracterizado por produção reduzida de forragem e maior exposição do solo. A equipe responsável pelo mapeamento considera esse indicador um sinal de alerta para políticas de recuperação e manejo adequado.
No recorte estadual, Mato Grosso do Sul figura entre os seis estados com maior extensão de pastagens, totalizando 12,2 milhões de hectares. De acordo com os pesquisadores, a dimensão desse espaço faz com que a adoção de práticas de manejo eficiente seja decisiva para manter a produtividade dos sistemas pecuários.
Apesar da quantidade de áreas debilitadas, o levantamento identificou avanço gradual na condição das pastagens entre 2000 e 2024. Nesse intervalo, houve ganho líquido de vigor em 6,2 milhões de hectares. Os autores explicam que a melhora resulta de combinação de fatores, como mudanças climáticas regionais, técnicas de restauração e adoção de sistemas mais intensivos de manejo pelos produtores.
Agricultura intensifica uso do solo e amplia número de ciclos
O relatório mostra que a agricultura temporária ocupa hoje 23% do território nacional. Nesse grupo, a prática de cultivar mais de um ciclo por ano aumentou e passou a abranger 31,4 milhões de hectares em 2024. O índice considera tanto culturas de grãos como plantios de cobertura utilizados para manter o solo protegido entre safras.
Especialistas vinculados ao estudo destacam que a intensificação produtiva exige atenção às práticas de conservação, por exemplo, adoção de plantio direto, rotação de culturas e manutenção de cobertura vegetal. O número maior de ciclos é visto como indicador inicial do ritmo de uso da terra, mas não assegura, por si só, a saúde do solo.
Soja se consolida como principal frente de expansão
A cultura da soja respondeu por um dos movimentos estruturantes do período analisado. A área plantada saltou de 4,5 milhões de hectares em 1985 para 40,7 milhões de hectares em 2024. Dependendo da região, a expansão ocorreu sobre áreas que já haviam sido convertidas, como antigas pastagens, ou diretamente sobre vegetação nativa.
No bioma Mata Atlântica e em parte do sul de Mato Grosso do Sul, a soja substituiu principalmente terras agrícolas preexistentes. Na região conhecida como Matopiba – que envolve partes do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia – parte expressiva do avanço ocorreu sobre formações naturais, ampliando a pressão sobre ecossistemas locais.
Diversidade de trajetórias entre os biomas
O estudo completo detalha como a dinâmica de uso do solo varia conforme a realidade de cada bioma. Em áreas já fortemente antropizadas, a conversão tende a ocorrer sobre terrenos anteriormente alterados, reduzindo a remoção direta de vegetação nativa. Já em regiões com maior cobertura natural remanescente, o avanço agrícola pode significar perda imediata de habitats.
Segundo o MapBiomas, a combinação de demandas econômicas, políticas públicas e tecnologias agrícolas continuará determinando a configuração do território brasileiro. Embora o levantamento indique sinais de recuperação em parte das pastagens e ganhos de eficiência no cultivo, os pesquisadores ressaltam que a sustentabilidade de longo prazo depende da adoção generalizada de práticas que mantenham solo, água e biodiversidade em equilíbrio.
Metodologia baseada em satélites e IA
Para chegar aos resultados, a rede de universidades, centros de pesquisa e organizações ambientais processou séries históricas de imagens geradas por satélites de observação da Terra. Algoritmos de inteligência artificial classificaram os diferentes tipos de cobertura e uso do solo, permitindo calcular variações anuais de área, vigor e intensidade de cultivo.
Os dados consolidados apontam tendências que podem orientar planos de manejo, estratégias de recuperação e a formulação de políticas públicas voltadas à produção agropecuária e à conservação de biomas. O MapBiomas disponibiliza o conjunto de mapas e o detalhamento metodológico em plataforma aberta para consulta de produtores, gestores e sociedade civil.
Com isso, o novo retrato das terras brasileiras fornece referência atualizada sobre a evolução do uso do solo, evidenciando desafios e oportunidades para conciliar expansão produtiva, restauração de áreas degradadas e proteção dos ecossistemas que compõem o território nacional.









