O novo ministro dos Povos Indígenas, Eloy Terena, esteve em Dourados (MS) nesta sexta-feira, 3, para a primeira agenda oficial após assumir o cargo em 31 de janeiro. A visita teve como foco o surto de chikungunya que atinge principalmente as aldeias Jaguapiru e Bororó, na Reserva Indígena de Dourados, onde se concentram 72,5% dos casos confirmados na região.
Durante reunião com representantes dos governos estadual e municipal, Terena cobrou a execução dos recursos já repassados pelo Governo Federal para o enfrentamento da epidemia. Segundo o ministro, “os valores estão nas contas do Estado e do município e devem ser aplicados imediatamente em ações emergenciais”.
Recursos federais já liberados
O Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR), por meio da Defesa Civil Nacional, destinou R$ 1,3 milhão para socorro e assistência humanitária. O Ministério da Saúde repassou R$ 855,3 mil ao município para vigilância, assistência e controle vetorial. Outros R$ 974,1 mil foram liberados pela Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil para limpeza urbana, remoção de resíduos e descarte em aterro licenciado. No total, mais de R$ 3,1 milhões já foram enviados para ações de emergência em Dourados.
Terena destacou que a falta de coleta regular de lixo dentro da reserva indígena é um dos fatores que favorecem a proliferação do Aedes aegypti, mosquito transmissor da chikungunya. O ministro defendeu a inclusão das aldeias nos serviços municipais de manejo de resíduos e cobrou “ações estruturantes” que integrem todo o território, urbano e indígena.
Reforço de pessoal e equipamentos
Para ampliar a resposta, o Ministério da Saúde autorizou a contratação emergencial de 50 Agentes de Combate às Endemias (ACEs). Vinte desses profissionais já foram treinados e iniciaram as atividades nesta sexta-feira, enquanto os outros 30 começam capacitação na segunda-feira, 6. No total, aproximadamente 95 trabalhadores — entre ACEs e Agentes Indígenas de Saneamento (AISAN) — atuam no controle vetorial nas aldeias.
Além disso, estão em treinamento 40 militares disponibilizados pelo Ministério da Defesa para reforçar as ações de campo. Cinco viaturas foram encaminhadas à reserva para ampliar a área de cobertura nas inspeções domiciliares e na aplicação de larvicidas.
Atendimento de saúde
A Força Nacional do SUS mantém 40 profissionais mobilizados em Dourados desde o início de março; 26 deles trabalham atualmente em regime de plantão. Até 3 de abril, as equipes realizaram 1.288 atendimentos clínicos, 81 remoções para média e alta complexidade e 225 visitas domiciliares, distribuídas por quatro pontos fixos nas aldeias.
Segundo a coordenação local da Força, o monitoramento diário visa identificar precocemente casos graves. No fim de semana, parte da equipe permanece no Hospital da Missão para reforçar a assistência prestada pela rede municipal.
Obras de abastecimento de água
Durante a agenda, a presidente recém-empossada da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), Lucia Alberta Baré, assinou autorização para iniciar a construção de dois super poços na Reserva de Dourados — um na Jaguapiru e outro na Bororó. As perfurações, de alta profundidade, serão executadas pelo Governo de Mato Grosso do Sul e deverão ampliar a oferta de água potável nas aldeias.
Situação epidemiológica
Dados da Vigilância Epidemiológica de 3 de abril indicam 3.081 notificações de chikungunya em Dourados. Destas, 1.259 foram confirmadas, 438 descartadas e 1.822 permanecem em investigação. Nas aldeias, foram registrados 914 casos confirmados, correspondendo a 72,5% do total.
Até o momento, cinco óbitos relacionados à chikungunya foram contabilizados no município, todos de moradores indígenas: uma mulher de 69 anos (26/02/2026), um homem de 73 anos (09/03/2026), um bebê de três meses (10/03/2026), uma mulher de 60 anos (12/03/2026) e um bebê de um mês (24/03/2026).
Reuniões e visitas
A comitiva federal, integrada por representantes do Ministério da Saúde, Força Nacional do SUS, Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) e Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI), reuniu-se com gestores estaduais e municipais para alinhar estratégias. Na sequência, o ministro visitou a Casa de Reza de Seu Getúlio e Dona Alda, encontrou-se com caciques, vice-caciques e lideranças na Escola Municipal Tengatuí e ouviu reivindicações da comunidade.
A agenda terminou no Hospital Universitário da Universidade Federal da Grande Dourados (HU-UFGD), referência no atendimento indígena. Lá, Terena conversou com a direção da unidade e visitou uma mãe indígena cujo filho está internado com chikungunya.
O ministro afirmou que retornará ao município para acompanhar a aplicação dos recursos e a evolução das medidas de controle, ressaltando que “não há espaço para negacionismo” diante da situação crítica na reserva.








