A ausência de rede coletora de esgoto no bairro da Lapa, em Três Lagoas, mantém há pelo menos 15 anos uma rotina de vazamentos, alagamentos internos e mau cheiro que afeta várias famílias da região. A comerciante Sônia Inácio, moradora antiga do local, afirma que os problemas se repetem desde que se mudou para o imóvel e coloca a falta de infraestrutura sanitária como causa principal dos transtornos.
No endereço onde vive, assim como em todo o bairro, o esgotamento sanitário depende exclusivamente de fossas sépticas. Segundo Sônia, a cada 15 dias é preciso contratar um caminhão limpa-fossa para remover os dejetos acumulados. O serviço custa, em média, R$ 300 por intervenção. Quando a limpeza não ocorre no momento certo, os resíduos retornam pelos ralos e vasos sanitários, inundando banheiro, corredores e parte da área de serviço.
“Se a fossa atinge o limite, o esgoto volta pelos canos e toma conta do piso”, descreve a comerciante, que mantém duas fossas no quintal. Para reduzir a frequência de enchimento, ela adaptou o sistema de drenagem doméstica: a água da máquina de lavar e a condensação do ar-condicionado foram desviadas para um corredor lateral, evitando que esses volumes adicionais cheguem aos reservatórios subterrâneos. Ainda assim, o intervalo entre as limpezas não passa de 15 dias.
O impacto financeiro não é o único incômodo relatado. De acordo com Sônia, o odor característico dos resíduos não tratados se espalha pelas ruas e afeta toda a vizinhança. “O bairro inteiro sente o mau cheiro”, comenta. A comerciante acrescenta que vários moradores recorrem ao mesmo procedimento de limpeza quinzenal para impedir o acúmulo de dejetos, o que gera gastos periódicos e não resolve a origem do problema.
Diante da situação prolongada, a moradora buscou informações em diferentes instâncias. Ela afirma ter procurado a empresa responsável pelo saneamento em Três Lagoas e também registro junto à sede da companhia em Campo Grande. Segundo o relato, recebeu a resposta de que não há projeto em andamento para implantação de rede de esgoto na área atualmente.
Procurada pela reportagem, a Sanesul, companhia de saneamento que atende o município, informou por meio do gerente regional Adilson Bahia que um levantamento será realizado no bairro da Lapa. A avaliação pretende identificar eventuais vazios de cobertura, dimensionar a parte técnica e apontar possíveis soluções. A empresa, entretanto, não estabeleceu prazo para início de obras nem sinalizou recursos destinados à expansão da rede na localidade.
Enquanto a definição não ocorre, moradores continuam contando apenas com sistemas individuais, que demandam manutenção frequente e apresentam risco de contaminação ao solo, principalmente quando falham ou transbordam. Em períodos de chuva intensa, o cenário tende a se agravar, pois o lençol freático sobe e reduz a capacidade das fossas de absorver líquidos, acelerando o retorno de dejetos para dentro das residências.
A Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) recomenda que municípios aumentem a cobertura de coleta e tratamento de esgoto para minimizar impactos ambientais e de saúde pública. No caso da Lapa, o atendimento dependeria de extensão das tubulações existentes em outros bairros de Três Lagoas ou de um projeto específico que inclua esta área no sistema municipal. Até que isso ocorra, a solução permanece restrita aos dispositivos particulares, cujo custo se acumula ao longo dos anos para cada família.
Em números aproximados, Sônia calcula ter desembolsado mais de R$ 70 mil somente com limpezas ao longo dos 15 anos. A estimativa considera o valor médio de R$ 300 por serviço, multiplicado por duas limpezas mensais e 180 meses no período. Outros moradores relatam despesas semelhantes, variando conforme o tamanho da residência e o número de moradores.
O bairro da Lapa situa-se em área de expansão urbana de Três Lagoas, a cerca de oito quilômetros do centro. A região cresceu de forma acelerada nas últimas décadas, acompanhando a instalação de indústrias de celulose e o aumento populacional do município. Contudo, a infraestrutura de saneamento não avançou no mesmo ritmo, gerando pontos de ausência completa ou parcial de esgotamento sanitário.
Enquanto aguardam a possível inclusão no plano de obras da Sanesul, os moradores continuam dependendo de soluções paliativas. A comerciante Sônia Inácio pretende formalizar nova solicitação de atendimento à empresa e ao poder público municipal, buscando prioridade para a implantação da rede no bairro. Segundo ela, o objetivo é evitar que a próxima geração conviva com os mesmos vazamentos que afetam as residências há uma década e meia.









