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Oficinas de arte incentivam adolescentes quilombolas a retratar memória e cotidiano em Campo Grande

Adolescentes da Comunidade Quilombola Chácara Buriti participam neste sábado (14) de oficinas de pintura e colagem que transformam lembranças pessoais, paisagens locais e situações do dia a dia em produções artísticas. A atividade compõe o projeto Reafirmando Territórios, iniciativa voltada ao fortalecimento da identidade cultural e do senso de pertencimento de grupos tradicionais na capital sul-mato-grossense.

O trabalho é conduzido pelo Coletivo Enegrecer e conta com o apoio da Prefeitura de Campo Grande, por intermédio da Fundação Municipal de Cultura (Fundac). A proposta leva ações culturais a diferentes regiões da cidade, com foco em comunidades que historicamente enfrentam barreiras de acesso a equipamentos e programas artísticos.

Nesta edição, o público-alvo reúne jovens da Chácara Buriti, área reconhecida como território quilombola. Os participantes são convidados a observar o próprio ambiente, identificar elementos que represente o cotidiano e transformá-los em narrativas visuais. De acordo com a idealizadora do projeto, a artista Erika Pedraza, a prática artística funciona como instrumento de valorização pessoal, pois possibilita que o aluno se perceba como protagonista da obra que produz.

As atividades foram estruturadas em dois módulos complementares. Na oficina de pintura, ministrada pela artista Thalita Valiente, o foco recai sobre a relação entre território e identidade. Cada estudante é encorajado a selecionar objetos, cenários ou memórias que considere significativos dentro da comunidade e a retratar essas referências sobre a tela. A orientação busca mostrar que itens aparentemente simples, como uma árvore do quintal, um utensílio doméstico ou um momento de convívio familiar, também carregam valor expressivo e podem compor trabalhos pictóricos relevantes.

O segundo módulo, dedicado à colagem e conduzido por Yasmin Alexandra, ressalta a possibilidade de criar arte com materiais acessíveis. Por meio de recortes de revistas, papéis reutilizados e outros suportes disponíveis no ambiente doméstico, os adolescentes experimentam combinar imagens, texturas e palavras para construir narrativas visuais próprias. A abordagem evidencia que a produção artística não depende de insumos raros ou de alto custo, mas da capacidade de recombinar elementos que já fazem parte da rotina dos moradores.

Durante o encontro, o coletivo responsável incentiva a troca de experiências entre os jovens. Ao relatar a origem de cada ideia ou elemento selecionado, os participantes compartilham memórias familiares e histórias sobre a formação do território quilombola. Esse processo colaborativo permite que referências individuais se articulem em uma memória coletiva, fortalecendo laços comunitários e promovendo o reconhecimento da herança cultural presente no local.

Além do estímulo à criatividade, o Reafirmando Territórios atua na ampliação do acesso à cultura dentro da própria Chácara Buriti. Ao realizar as oficinas no interior da comunidade, a iniciativa elimina barreiras de deslocamento e demonstra, na prática, que espaços culturais podem ser criados onde o público vive. A presença de formadores, artistas e materiais adequados incentiva a continuidade das práticas artísticas após o término das atividades formais.

O apoio da Fundac insere o projeto em um conjunto mais amplo de ações voltadas ao fomento da arte popular e à valorização de territórios tradicionais em Campo Grande. Segundo a Fundação, iniciativas semelhantes têm percorrido bairros periféricos, aldeias indígenas e outras comunidades quilombolas, atuando na formação de novos públicos e na difusão de expressões culturais locais.

Para o Coletivo Enegrecer, o resultado esperado vai além das obras produzidas durante o evento. A intenção é que cada participante reconheça a própria trajetória como fonte legítima de criação artística e, a partir daí, mantenha o hábito de registrar memórias, sentimentos e situações cotidianas por meio de linguagens visuais. Esse movimento, avaliam os organizadores, contribui para consolidar a autoestima dos jovens e reforçar a continuidade das tradições quilombolas.

Com a realização das oficinas, a Chácara Buriti se torna, ao longo deste sábado, um espaço de experimentação artística aberta aos próprios moradores. As telas, colagens e demais trabalhos finalizados permanecem na comunidade, compondo uma pequena mostra interna que retrata paisagens, objetos e histórias do entorno imediato. Desse modo, o projeto estimula a circulação de obras que refletem o olhar dos adolescentes sobre o ambiente em que vivem e reforça a permanência da arte como parte integrante da vida cotidiana local.

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