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Pantanal e Caatinga contrariam tendência nacional e registram alta no desmatamento em 2024

O monitoramento anual do Programa de Monitoramento da Vegetação Nativa (Prodes), divulgado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), aponta que apenas dois biomas brasileiros apresentaram aumento na supressão de vegetação entre 2023 e 2024. O Pantanal registrou acréscimo de 16,5%, enquanto a Caatinga teve elevação de 9,93%. O resultado contrasta com a redução observada nos demais biomas do país, que consolidaram queda expressiva no período analisado.

O Pantanal, que abrange áreas de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, é reconhecido por sua elevada biodiversidade e por desempenhar papel relevante na regulação hídrica regional. Especialistas alertam que o avanço da remoção de vegetação nesse ecossistema afeta diretamente a fauna, a flora e atividades econômicas associadas, como pesca, turismo e pecuária de baixo impacto. A persistência da pressão sobre o bioma também amplia riscos de incêndios sazonais e compromete a capacidade de armazenamento de água em períodos de estiagem.

Na Caatinga, único bioma exclusivamente brasileiro, a alta de quase 10% na supressão preocupa pesquisadores pela vulnerabilidade dos ecossistemas semiáridos a processos de degradação e desertificação. A vegetação local apresenta grande adaptação a condições climáticas extremas; no entanto, a remoção de cobertura nativa reduz a capacidade de manutenção de solos, ameaça espécies endêmicas e eleva a exposição de comunidades rurais a eventos climáticos severos.

Dados por bioma

Enquanto Pantanal e Caatinga avançaram em desmatamento, os demais ambientes naturais apresentaram queda, segundo o Inpe. A Amazônia reduziu a perda de vegetação em 28,09%, consolidando o maior volume absoluto de áreas preservadas no comparativo anual. No Cerrado, a diminuição foi de 25,76%. A Mata Atlântica apresentou recuo de 37,89%, índice proporcionalmente superior aos demais biomas florestais. O Pampa, por sua vez, registrou retração de 20,08%, e as áreas não florestais da Amazônia tiveram queda de 5,27%.

Os números foram obtidos por meio de imagens de satélite processadas com detecção automática de alterações na cobertura vegetal. Após a etapa computacional, analistas do Inpe realizam verificação visual para reduzir possíveis erros de classificação, assegurando maior precisão ao levantamento. O sistema considera como supressão apenas a retirada de vegetação nativa, independente do uso futuro da área, permitindo avaliar a real pressão sobre ecossistemas naturais.

De acordo com técnicos do instituto, o acompanhamento sistemático é essencial para identificar tendências de médio e longo prazo, subsidiar políticas públicas de controle ambiental e orientar setores produtivos na adoção de práticas sustentáveis. Os dados também servem de referência para estratégias de combate a crimes ambientais, elaboração de planos de manejo e definição de áreas prioritárias para fiscalização.

Para Silvana Amaral, vice-coordenadora do Programa BiomasBR, a redução observada em cinco dos sete biomas avaliados demonstra a efetividade de políticas de comando e controle, além de mecanismos regulatórios que envolvem poder público, sociedade civil e cadeias de exportação de produtos agropecuários. Ela destaca que o monitoramento contínuo permite direcionar esforços a regiões com maior pressão, como Pantanal e Caatinga, e promover ações de educação ambiental baseadas em evidências.

A nota técnica do Inpe ressalta que a consolidação dos dados de 2024 contribui para a compreensão das dinâmicas de uso da terra e para o planejamento de atividades econômicas compatíveis com a conservação. No caso do Pantanal, a informação sobre a tendência de aumento poderá orientar a implementação de medidas preventivas, especialmente em períodos de estiagem, quando o bioma se torna mais suscetível a incêndios. Na Caatinga, o diagnóstico reforça a necessidade de iniciativas que conciliem produção agrícola com manutenção da vegetação nativa, reduzindo a vulnerabilidade socioambiental da região.

O balanço do Prodes confirma, portanto, que, embora o país registre avanços na redução do desmatamento em ampla escala, persistem focos de expansão que exigem atenção imediata. O detalhamento das áreas impactadas possibilita a gestores públicos, pesquisadores e setores privados direcionar recursos e esforços para conter a supressão de vegetação onde ela ainda cresce, assegurando a integridade dos ecossistemas e a manutenção dos serviços ambientais que sustentam a economia e o bem-estar das populações locais.