Search

Presidente da Fiems aponta potencial para ampliar transformação industrial em Mato Grosso do Sul

A chamada neoindustrialização de Mato Grosso do Sul ainda tem margem para avançar, segundo o presidente da Federação das Indústrias do Estado (Fiems), Sérgio Longen. Em entrevista concedida durante o RCN Agro 2026 e o Fórum Lide Agro Expogrande 2026, o dirigente afirmou que a economia sul-mato-grossense precisa ir além da produção de matéria-prima e investir na agregação de valor aos itens que saem do campo.

Longen classificou o movimento como um “projeto de Estado” que vem sendo construído gradualmente. Ele lembrou a própria trajetória empresarial iniciada em 1991, no setor de alimentos, para ilustrar como a indústria local evoluiu de iniciativas isoladas para uma estratégia regional mais ampla. Segundo o presidente da Fiems, o debate deixou de ser restrito às empresas e passou a envolver políticas públicas, atração de investimentos e interiorização de oportunidades.

Nos primeiros anos, relatou Longen, o Estado buscava definir quais vocações industriais poderiam se consolidar. Na época, as discussões giravam em torno do setor sucroalcooleiro, da carne bovina e da possibilidade de transformar a produção agrícola em itens de maior valor agregado. Foi nesse contexto que a celulose surgiu como alternativa promissora, ainda quando o projeto era apenas uma prospecção.

Desde então, a instalação de plantas de celulose consolidou um novo eixo econômico, mas o dirigente avalia que o próximo passo é transformar esse insumo em produtos finais, como papel. Para Longen, essa verticalização representará a principal fronteira da indústria estadual nos próximos ciclos, pois reduz a dependência de mercados externos e eleva a participação local na renda gerada pela cadeia florestal.

Outro segmento citado foi o DDG, subproduto do milho resultante da fabricação de etanol. O material, usado na nutrição animal, já é produzido em larga escala no Estado e, de acordo com o presidente da Fiems, encontra demanda consistente no mercado internacional. Em alguns casos, observou, o valor agregado do DDG supera o do próprio etanol.

Dentro da mesma lógica de diversificação, Longen destacou o potencial do etanol de sorgo. A cultura, segundo ele, pode ocupar janelas de menor chuva, oferecendo alternativa ao produtor em regiões onde o milho enfrenta maior risco climático. A expectativa é que o sorgo complemente o suprimento de matéria-prima para a indústria de biocombustíveis e fortaleça a integração entre agricultura e processamento.

Apesar do otimismo com as novas frentes produtivas, o presidente da Fiems apontou gargalos que, na avaliação dele, precisam ser superados. Entre eles estão questões fiscais, inseguranças regulatórias e, principalmente, a escassez de mão de obra qualificada. Longen informou que Mato Grosso do Sul iniciou o ano com cerca de 30 mil vagas abertas e ainda mantém aproximadamente 25 mil posições sem preenchimento.

Para mitigar o problema, o sistema Fiems oferece cerca de 100 mil vagas gratuitas de capacitação em todo o Estado. A entidade articula parcerias com a rede estadual de ensino, desenvolve turmas em municípios de forte expansão industrial e busca integrar trabalhadores estrangeiros, entre paraguaios, bolivianos e venezuelanos. Ainda assim, o dirigente reconhece dificuldades para atrair alunos e concluintes.

Na avaliação de Longen, programas sociais federais estariam entre os fatores que dificultam o acesso de beneficiários aos cursos e, posteriormente, às vagas disponíveis. Ele defendeu que a qualificação profissional e o encaminhamento ao mercado de trabalho são etapas decisivas para sustentar o novo ciclo de crescimento industrial.

Além da capacitação, o dirigente voltou a enfatizar a necessidade de espalhar a expansão industrial por diferentes regiões. Com 79 municípios, disse, Mato Grosso do Sul não deve concentrar investimentos em poucos polos, como Três Lagoas. A proposta é criar uma rede de crescimento regionalizado capaz de multiplicar oportunidades de emprego e renda em todo o território estadual.

Para Longen, a combinação de interiorização, agregação de valor e formação de mão de obra pode posicionar Mato Grosso do Sul em um patamar mais competitivo no cenário nacional. Ele argumentou que, embora o debate público costume enfatizar dificuldades, indicadores como aeroportos movimentados, demanda por veículos e consumo aquecido sugerem dinamismo na economia real.

Nesse contexto, o presidente da Fiems concluiu que o Estado já possui uma base industrial relevante, mas ainda dispõe de espaço para ampliar a transformação dos próprios insumos, diversificar cadeias produtivas e suprir a demanda por profissionais especializados. O desafio, segundo ele, será converter esse potencial em escala, garantindo que a falta de trabalhadores qualificados não comprometa a nova etapa de neoindustrialização sul-mato-grossense.