A primeira edição do Empretec voltada exclusivamente para quilombolas foi concluída no sábado (29) em Nioaque, município localizado a 180 quilômetros de Campo Grande. Vinte participantes das comunidades Araújo e Ribeiro, Família Cardoso, Romano Martins Conceição e Bulhões receberam certificados após seis dias de atividades intensivas, que integram um ciclo de edições planejadas para povos indígenas e quilombolas de Mato Grosso do Sul.
Nioaque é a única cidade do estado que reúne quatro comunidades remanescentes de quilombo. Juntas, elas somam cerca de 700 moradores que preservam costumes ancestrais e dependem, em grande parte, de pequenas atividades agroextrativistas e artesanato para geração de renda. Ao levar o Empretec a esse contexto, os organizadores buscam ampliar as oportunidades de empreendedorismo local, respeitando as especificidades culturais de cada território.
O seminário é baseado em metodologia desenvolvida pela Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) e executada no Brasil exclusivamente pelo Sebrae. Reconhecido internacionalmente, o programa trabalha dez características de comportamento empreendedor, como iniciativa, persistência, cálculo de riscos e estabelecimento de metas. Para o público quilombola, foram incluídos ajustes que consideram idioma, formas de organização comunitária e atividades econômicas tradicionais, de modo a garantir que o conteúdo seja assimilado sem ferir valores coletivos nem praticar imposições externas.
Durante uma semana, os participantes vivenciaram dinâmicas práticas, testes de autoconhecimento e simulações de negócios. As atividades foram conduzidas pelo facilitador Francisco de Almeida, que já aplicou o Empretec em diferentes regiões do país. Segundo ele, o resultado costuma despertar demanda por novos grupos. Assim que a turma conclui o processo, surge o interesse em levar o curso a outros moradores, criando efeito multiplicador dentro do próprio território.
Para Vitor Araújo, liderança da Comunidade Araújo e Ribeiro, a realização do programa marca um passo inédito. A seu ver, a capacitação ampliou a percepção sobre o potencial econômico dos recursos locais e permitiu identificar formas de agregar valor a produtos já existentes. Entre os planejamentos discutidos estão o fortalecimento da cadeia de hortaliças, a comercialização de derivados da mandioca e a formalização de grupos de artesanato.
A secretária estadual da Cidadania, Viviane Luiza, acompanhou a solenidade de encerramento. Ela explicou que a iniciativa surgiu de escutas realizadas diretamente nas comunidades tradicionais. O governo recebeu, primeiro, a solicitação de povos indígenas. Em seguida, verificou que os territórios quilombolas também apresentavam demandas específicas de qualificação para empreender. Nioaque foi escolhido pela concentração de quilombos e pela articulação prévia entre associações locais, o que viabilizou a instalação do seminário dentro do próprio território.
De acordo com o Sebrae, o Empretec tem o objetivo de promover autonomia econômica, gerar inclusão produtiva e fortalecer o senso de liderança comunitária. No caso de comunidades quilombolas, esses resultados são considerados estratégicos para manter a população no território, reduzir a dependência de programas de transferência de renda e estimular projetos sustentáveis alinhados às identidades culturais.
Além das aulas, os participantes elaboraram planos de ação que serão monitorados pelos consultores do Sebrae e pela Secretaria de Estado da Cidadania ao longo dos próximos meses. O acompanhamento inclui visitas periódicas para avaliar o andamento das metas estabelecidas, identificar gargalos e oferecer orientações adicionais. Entre as metas definidas pela turma estão a criação de uma feira semanal de produtos orgânicos, a implantação de pequenas agroindústrias caseiras e o desenvolvimento de roteiros de turismo de experiência que contemplem culinária, história e manifestações artísticas quilombolas.
A continuidade do programa depende da mobilização das próprias comunidades. O facilitador Francisco de Almeida informou que, após a conclusão, os novos empretecos costumam organizar grupos de interesse para replicar conteúdos básicos e incentivar outros moradores a participarem de futuras turmas. Quando uma comunidade reúne pelo menos 20 pessoas aptas, o Sebrae agenda nova edição.
No encerramento, representantes das quatro comunidades destacaram que a formação também contribuiu para reforçar vínculos internos, já que as atividades exigem trabalho em equipe e tomada de decisões coletivas. Lideranças acreditam que a parceria entre poder público, Sebrae e organizações comunitárias ajuda a criar um ambiente favorável ao surgimento de pequenos negócios, geração de emprego e retenção da juventude no campo.
Com a conclusão da turma em Nioaque, o Sebrae e a Secretaria de Estado da Cidadania avaliam estender o Empretec quilombola a outras regiões de Mato Grosso do Sul. Estão em estudo edições em municípios como Corumbá, Aquidauana e Miranda, que concentram comunidades tradicionais e apresentam potencial para projetos de agricultura familiar, ecoturismo e economia criativa.
A experiência de Nioaque demonstra, segundo os organizadores, que a metodologia pode ser adaptada a diferentes realidades socioculturais sem perder a essência. Ao reforçar a capacidade empreendedora dos participantes e incentivar a valorização de insumos locais, o programa se consolida como ferramenta de desenvolvimento territorial, combinando geração de renda, preservação cultural e fortalecimento da identidade quilombola.









