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Reversão de sanções nos EUA valoriza Real e amplia espaço para soja brasileira na China

A decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos de anular sanções comerciais específicas impostas pelo então presidente Donald Trump alterou, nesta semana, o ambiente financeiro internacional e o fluxo do agronegócio. A medida pôs fim às sobretaxas direcionadas, manteve apenas a tarifa global de 15% e provocou reações imediatas em câmbio, bolsas de commodities e projeções de exportação de soja.

O primeiro reflexo apareceu no mercado de moedas. Com a retirada das penalidades, investidores passaram a enxergar menor previsibilidade na política comercial norte-americana e buscaram proteção em economias emergentes. O movimento fortaleceu o Real, o Peso argentino e o Peso mexicano. No Brasil, o dólar recuou até a faixa de R$ 5,16, patamar que não era observado desde o início do ano.

A valorização das moedas sul-americanas coincidiu com a queda dos contratos futuros de soja negociados na Bolsa de Chicago. Sem a ameaça tarifária que pressionava Pequim a priorizar o produto dos Estados Unidos, operadores passaram a questionar a continuidade de um acordo firmado entre Washington e a capital chinesa. Pelo compromisso, a China se comprometeu a comprar 20 milhões de toneladas de soja norte-americana; desse total, 12 milhões já foram embarcadas e restam 8 milhões pendentes.

Diferença de preços e entraves logísticos

A dúvida dos agentes de mercado decorre de uma discrepância significativa de preços. Atualmente, a soja dos Estados Unidos chega aos portos chineses a aproximadamente US$ 530 a tonelada, enquanto a oleaginosa brasileira é entregue a cerca de US$ 470. Além do custo mais alto, a logística norte-americana enfrenta contratempos provocados por uma recente nevasca e pela redução do calado no Rio Mississippi, principal hidrovia de escoamento do cinturão agrícola dos Estados Unidos. As condições adversas aumentam o valor do frete e reduzem a competitividade do produto.

Com o frete mais caro e a retirada da pressão tarifária, analistas avaliam que a China tem margem para substituir parte das compras norte-americanas por soja sul-americana. Esse cenário abriu uma janela de oportunidade para o Brasil. A expectativa é de elevação do chamado “prêmio”, valor adicional pago sobre a cotação de Chicago para garantir embarques físicos quando a demanda cresce.

Efeito no produtor brasileiro

No campo, o impacto principal recai sobre a receita do sojicultor. A melhora do prêmio tende a compensar parcialmente o recuo da bolsa norte-americana e a valorização do Real, que reduz a remuneração quando convertida em moeda local. Especialistas ressaltam, porém, que muitas tradings ainda não repassam integralmente esse ganho, pois compradores finais seguem avaliando a extensão da mudança de rota chinesa.

Estratégias sugeridas por analistas incluem a venda pontual durante picos diários de prêmio para quem precisa de caixa imediato e a fixação de preços futuros por meio de hedge em Chicago para quem mira proteção contra prováveis oscilações no segundo semestre. O raciocínio é evitar exposição excessiva caso o mercado devolva parte dos ganhos depois que o fluxo comercial se reequilibrar.

Sinal de possível retaliação

Embora as sobretaxas direcionadas tenham sido retiradas, o governo norte-americano indicou que poderá recorrer a outros instrumentos legais, como dispositivos de segurança nacional, para instaurar novas tarifas se considerar que parceiros adotam práticas comerciais consideradas desleais. A declaração mantém o horizonte de incerteza e limita a previsibilidade de longo prazo para exportadores e importadores.

Enquanto isso, a tarifa global de 15% continua vigente, o que sustenta um piso de custos para todos os países que vendem ao mercado norte-americano. Mesmo assim, a retirada das sanções específicas já foi suficiente para deslocar capitais, reduzir a cotação do dólar e realinhar expectativas na cadeia mundial da soja. A dinâmica observada nesta semana será monitorada de perto por produtores brasileiros, tradings e compradores chineses, que reavaliam volumes, prazos e preços diante do novo conjunto de incentivos e restrições.

A combinação de câmbio favorável, prêmio em alta e custos logísticos mais competitivos mantém o Brasil em posição de vantagem momentânea. Nos próximos meses, o ritmo das compras chinesas e eventuais reações de Washington definirão se essa vantagem se consolidará ou se será revertida por novas medidas tarifárias.

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