O anúncio do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de aplicar uma tarifa de 25% a países que mantêm comércio com o Irã introduziu um novo fator de risco para o agronegócio de Mato Grosso do Sul. Em 2025, o Estado vendeu ao mercado iraniano mais de US$ 170 milhões, valor sustentado principalmente por milho e soja. A medida, com efeito imediato, foi divulgada sem detalhamento técnico sobre a forma de cobrança, mas abrange todas as transações realizadas com os Estados Unidos por nações que continuem negociando com a República Islâmica.
Dependência do agro sul-mato-grossense
Dados oficiais mostram que as exportações de Mato Grosso do Sul ao Irã concentram-se em grãos e derivados. O milho não moído, exceto o doce, liderou a pauta, alcançando US$ 123,6 milhões em 2025. A soja somou US$ 30,5 milhões, seguida pelo açúcar de cana em bruto, com US$ 14,6 milhões. Resíduos da extração de óleo de soja (farelo e bagaço) completam a lista, com US$ 1,9 milhão. Portanto, cerca de 97% das vendas estaduais ao país persa estão ligadas diretamente à produção agrícola, setor que representa um dos principais motores da economia sul-mato-grossense.
Embora o governo estadual ainda não tenha comentado a decisão norte-americana, agentes de mercado acompanham possíveis reflexos sobre acordos futuros. O milho e a soja são duas das principais culturas do Estado, e qualquer barreira que comprometa o escoamento para um de seus tradicionais compradores pode repercutir em preços internos, planejamento de plantio e logística.
Cenário nacional
No âmbito brasileiro, o Irã se mantém entre os maiores destinos do agronegócio no Oriente Médio. Informações do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) indicam que, em 2025, as exportações brasileiras para o mercado iraniano totalizaram US$ 2,9 bilhões. Milho e soja responderam por 87,2% desse montante, evidenciando a forte participação do setor primário na relação bilateral.
Do lado oposto, as importações brasileiras provenientes do Irã atingiram cerca de US$ 84 milhões no mesmo período, com destaque para adubos e fertilizantes. Esse fluxo contribui para a cadeia produtiva nacional ao suprir parte da demanda por insumos agrícolas.
Incertezas sobre a aplicação da tarifa
O anúncio de Trump foi feito durante uma escalada de tensões envolvendo o Irã, que, segundo organizações não governamentais, enfrenta protestos internos e repressão. Além de sanções econômicas adicionais, o presidente norte-americano mencionou a possibilidade de medidas mais duras, inclusive opções militares. A nova tarifa amplia a complexidade do cenário, mas permanece indefinido o formato de implementação.
Até o momento não há esclarecimento sobre eventuais isenções, prazos de adaptação ou critérios para avaliar transações de países que comercializam simultaneamente com Estados Unidos e Irã. A Casa Branca não divulgou detalhes práticos, e governos estrangeiros aguardam a publicação formal da ordem executiva para analisar o alcance jurídico da iniciativa.
O Ministério das Relações Exteriores do Brasil informou que acompanha o caso e só se manifestará após o texto definitivo ser publicado. Entidades brasileiras do agronegócio também aguardam definições para dimensionar impactos. Uma preocupação imediata é se o novo imposto elevará custos para exportadores que utilizam portos norte-americanos em rotas logísticas ou mantêm operações conjuntas com empresas dos EUA.
Pressão adicional sobre mercados agrícolas
O setor de grãos já vinha administrando volatilidade externa, influenciada por variações cambiais, disputa comercial entre grandes produtores e mudanças climáticas. A possibilidade de uma cobrança de 25% sobre países que exportam ao Irã e simultaneamente fazem negócios nos Estados Unidos insere mais um elemento de incerteza. Dependendo do formato final da tarifa, podem surgir redirecionamentos de compras, busca por novos mercados e renegociação de contratos de longo prazo.
No caso específico de Mato Grosso do Sul, a relevância do Irã como destino do milho tornou-se mais evidente nos últimos anos, quando o país persa diversificou fornecedores para reduzir dependência de tradicionais exportadores. Se barreiras tarifárias limitarem esse canal, produtores locais terão de intensificar disputas por mercados alternativos ou lidar com eventual queda de preços internos em períodos de oferta elevada.
Além disso, a cadeia produtiva da soja pode sentir efeitos indiretos, pois parte expressiva do farelo e do óleo é direcionada a mercados que interagem com negociações iranianas. Mesmo que as vendas sul-mato-grossenses de soja ao Irã representem menos de um quinto do total estadual, a sinalização de menor demanda global pode refletir em prêmios e valores de referência.
Próximos passos
Analistas aguardam esclarecimentos da Casa Branca e respostas dos principais parceiros comerciais dos Estados Unidos. Se confirmada nos moldes anunciados, a tarifa tende a pressionar não só exportadores brasileiros, mas também concorrentes de outras regiões que mantêm laços comerciais com Teerã. Em Mato Grosso do Sul, a avaliação inicial é que os efeitos dependerão da forma de aplicação: se generalizada, pode afetar diretamente contratos de milho e soja; se segmentada, os impactos podem ser parcialmente mitigados.
Enquanto não há definição, empresas exportadoras, tradings e produtores intensificam levantamento de informações para ajustar estratégias de mercado e logística, em especial para a próxima safra de grãos, cujas projeções de plantio já estão em fase de consolidação. A evolução das tratativas internacionais, somada ao comportamento da demanda iraniana, será determinante para o ajuste das operações de um setor que, em 2025, respondeu por mais de US$ 170 milhões da pauta externa sul-mato-grossense.








