O papel da tecnologia nos negócios passou das áreas de suporte para o núcleo das decisões estratégicas, afirmou o diretor de negócios da Digix, Diego Almoas, em entrevistas concedidas durante o RCN Agro 2026 e o Fórum Lide Agro Expogrande 2026, em Campo Grande (MS). Para o executivo, inovação só gera resultados quando parte de uma leitura clara dos objetivos da companhia, dos gargalos a serem resolvidos e dos dados já disponíveis.
Ferramenta certa depende do problema certo
Segundo Almoas, um erro recorrente no mercado é enxergar tecnologia apenas como despesa. A abordagem, na visão dele, deveria ser inversa: primeiro entender o que se quer alcançar e, depois, escolher a solução adequada. A contratação de sistemas ou softwares antes de identificar a real necessidade costuma levar a investimentos elevados com retorno restrito, porque a empresa pode acabar adotando plataformas sofisticadas para desafios simples.
Para evitar esse descompasso, o diretor recomenda que as organizações incluam especialistas internos, ainda que em equipes enxutas, na avaliação das ofertas apresentadas pelo mercado. Sem pessoas capazes de filtrar propostas e traduzir necessidades para fornecedores, cresce o risco de adquirir ferramentas incompatíveis com a estrutura ou a fase do negócio, convertendo a promessa de ganho competitivo em frustração.
Dados confiáveis como ponto de partida
O avanço tecnológico, de acordo com o executivo, depende da construção de bases de dados consistentes. Ele defende que o primeiro movimento de qualquer empresa deve ser conhecer com precisão seus próprios números, mesmo que isso comece com planilhas simples. A partir dessa fundação, sistemas mais complexos podem ser implantados para dar velocidade, previsibilidade e maior capacidade analítica.
No agronegócio, setor foco dos eventos, Almoas usou a pecuária leiteira para ilustrar o argumento. Se o produtor desconhece volume efetivo, qualidade do rebanho ou fatores que influenciam produtividade, qualquer plataforma posterior perde eficácia. Nesta lógica, a tecnologia só cumpre seu papel quando entrega confiabilidade às medições e subsidia decisões diárias, como a previsão de venda ou expansão.
Aplicações práticas no campo
Como exemplo de uso bem-sucedido, o diretor citou um projeto internacional que emprega sensores conectados à internet em vacas leiteiras. Os dispositivos monitoram localização, temperatura corporal e condições ambientais, com análise por inteligência artificial e imagens via satélite. A combinação permite ao produtor acompanhar a operação em tempo real e agir antes que oscilações afetem rentabilidade.
Na avaliação dele, o valor desse tipo de ferramenta não está apenas na sofisticação, mas na capacidade de antecipar cenários, estimar estoques e planejar exportações. Quando dados atualizados chegam rapidamente às mãos do gestor, a tecnologia deixa de ser acessório para se tornar elemento determinante na eficiência operacional.
Desafios brasileiros: infraestrutura e integração
Ao comparar o Brasil com experiências da China e da Estônia, Almoas concluiu que o País não carece de soluções digitais, mas enfrenta dois gargalos principais: infraestrutura e interoperabilidade. Fora dos grandes centros, a conectividade ainda é limitada, o que dificulta a adoção de sistemas que dependem de internet constante. Além disso, bases de dados públicas e privadas se mantêm fragmentadas, travando respostas mais ágeis de governos e empresas.
Na prática, isso significa que um produtor ou gestor pode até investir em sensores avançados, mas continuará limitado se não houver sinal estável ou se os diferentes sistemas não “conversarem” entre si. O executivo mencionou a dificuldade de cruzar informações de áreas como saúde e educação, exemplo que, no agronegócio, se reproduz em barreiras entre plataformas de clima, comércio e logística.
Inteligência artificial sem exageros
Sobre inteligência artificial, o diretor adotou tom pragmático. Ele reconhece que a IA amplia a velocidade de análise e reduz erros, porém alerta que nem todas as empresas necessitam, de imediato, das soluções mais complexas. O estágio de maturidade digital deve orientar cada passo. Almoas recorreu a uma metáfora simples para explicar o exagero: usar um canhão para matar uma mosca. A crítica mira quem opta por ferramentas caras ou superdimensionadas sem domínio prévio de processos internos e sem dados estruturados.
Investir com direção é o ponto de equilíbrio
Ao encerrar as participações nos dois eventos, o executivo reforçou que não investir em tecnologia já representa risco evidente de perda de competitividade. Entretanto, investir sem um roteiro claro pode custar caro e comprometer resultados. Para ele, o caminho equilibrado reúne três pilares: conhecimento profundo do negócio, qualidade das informações coletadas e objetivos definidos antes da escolha da ferramenta.
A mensagem final de Almoas sintetiza a mudança de paradigma destacada nas feiras: tecnologia deixou de ser tema periférico e se tornou parte indissociável do planejamento estratégico. Empresas que conectam inovação às metas principais tendem a ganhar eficiência, reduzir incertezas e ampliar margens, enquanto aquelas que tratam a digitalização como gasto isolado correm o risco de perder espaço em um mercado cada vez mais orientado por dados.









