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Telereabilitação amplia alcance da fisioterapia e expõe novos desafios éticos, técnicos e de formação

A incorporação de recursos digitais vem modificando o trabalho dos fisioterapeutas em todo o país. Impulsionada pelas restrições de mobilidade impostas pela pandemia de covid-19, a telereabilitação consolidou-se como alternativa para pacientes impossibilitados de comparecer a consultórios, permitindo o acompanhamento clínico a distância, a prescrição de exercícios personalizados e a orientação em tempo real por meio de plataformas online.

Expansão acelerada pela pandemia

No período mais crítico da crise sanitária, a necessidade de isolamento social levou profissionais e pacientes a adotarem a consulta remota como principal solução para continuidade dos tratamentos. Esse movimento aproximou a fisioterapia das tecnologias de comunicação e demonstrou a viabilidade de manter protocolos básicos de reabilitação sem deslocamentos. Segundo especialistas, o modelo reduziu custos de transporte, encurtou distâncias e favoreceu o atendimento de pessoas que vivem em áreas rurais ou com infraestrutura limitada de serviços de saúde.

Ainda assim, a avaliação presencial continua considerada etapa indispensável para que o fisioterapeuta identifique alterações posturais, avalie amplitude de movimento e realize testes de força muscular de forma precisa. Para o professor e pesquisador Edson Landolfi, a tecnologia “somou, mas não substituiu” o toque clínico, o exame físico detalhado e a observação minuciosa proporcionados pela consulta tradicional. A recomendação é que o primeiro contato seja presencial sempre que possível, ficando a telereabilitação para o acompanhamento ou para situações em que o encontro face a face seja inviável.

Regulamentação e lacunas normativas

Em resposta ao avanço da prática, o Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional (Coffito) publicou resolução que autoriza e estabelece parâmetros gerais para o atendimento remoto. O texto define obrigações como obtenção de consentimento do paciente, registro detalhado das sessões e garantia de confidencialidade. No entanto, ainda não foram fixados critérios específicos sobre elegibilidade dos casos, limites de atuação ou padrões mínimos de infraestrutura tecnológica.

A ausência de orientações mais detalhadas gera insegurança entre profissionais que buscam equilibrar inovação e responsabilidade clínica. Questões como a necessidade de câmeras em alta definição, plataformas com criptografia ponta a ponta e condições adequadas de iluminação do ambiente do paciente permanecem sem padronização. Além disso, procedimentos de emergência — por exemplo, a reação a sinais de complicação durante um exercício — carecem de protocolo próprio para o contexto virtual.

Proteção de dados em primeiro plano

Outro desafio apontado por fisioterapeutas está relacionado à segurança da informação. As sessões costumam envolver imagens do corpo do paciente e descrição de quadro clínico, dados enquadrados pela Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) como sensíveis. Gravações, fotografias ou relatórios enviados por aplicativos de mensagem exigem armazenamento seguro para evitar vazamentos. A recomendação é que os registros fiquem restritos a sistemas criptografados e que haja política clara de retenção e descarte, de modo a preservar o sigilo profissional.

Também há preocupação com o uso indevido de imagens em redes sociais ou plataformas de marketing. O Coffito veda a exposição de pacientes sem autorização explícita, porém situações de compartilhamento informal, muitas vezes feitas pelo próprio paciente, podem levar a riscos de interpretação equivocada das técnicas exibidas.

Letramento digital e equidade de acesso

Embora a popularização dos smartphones tenha facilitado a adesão à telereabilitação, parte expressiva da população ainda enfrenta barreiras tecnológicas. Entre idosos, pessoas com baixo nível de escolaridade ou moradores de regiões com conectividade instável, o manejo de aplicativos de videoconferência, câmeras e microfones pode ser limitante. Landolfi classifica a dificuldade como um “problema de letramento digital” que, se não for endereçado, tende a ampliar desigualdades no acesso a cuidados fisioterapêuticos.

Para mitigar essas disparidades, profissionais têm adotado estratégias de simplificação das plataformas, criação de tutoriais em áudio e vídeo e realização de testes prévios de conexão antes da primeira sessão. Em alguns casos, parceiros locais, como unidades básicas de saúde, oferecem apoio presencial para viabilizar a consulta remota.

Formação profissional diante do novo cenário

A evolução do setor também pressiona instituições de ensino a adaptar currículos. Competências ligadas à condução de consultas virtuais, ética em ambiente digital, coleta de dados por sensores e interpretação de métricas obtidas por aplicativos de monitoramento passam a integrar disciplinas complementares em cursos de graduação e pós-graduação. A tendência é que futuras gerações de fisioterapeutas concluam a formação já familiarizadas com plataformas de telessaúde e protocolos híbridos de atendimento.

Apesar das mudanças, especialistas reiteram que a essência da fisioterapia permanece centrada no cuidado individualizado e na relação de confiança entre profissional e paciente. A expectativa é de que o serviço híbrido, combinando atendimentos presenciais e sessões online, se consolide como modelo dominante no médio prazo, ao permitir maior flexibilidade sem comprometer a qualidade clínica.

Na avaliação de Landolfi, o principal desafio da próxima década será encontrar o ponto de equilíbrio entre eficiência tecnológica e humanização do contato. Enquanto reguladores avançam na criação de normas mais detalhadas, fisioterapeutas ajustam rotinas para aproveitar as vantagens da telereabilitação, ao mesmo tempo em que mantêm o olhar clínico e a avaliação física como referências indispensáveis do processo terapêutico.

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