Cerca de 33% das crianças com menos de 10 anos em Três Lagoas convivem com obesidade ou excesso de peso, de acordo com monitoramento realizado pela rede municipal de saúde. O índice, alinhado ao crescimento observado em todo o país, acende o alerta para a necessidade de ações preventivas que envolvam família, escola e serviços de saúde.
Em um intervalo de cinco anos, os registros de sobrepeso e obesidade entre crianças e adolescentes do município avançaram aproximadamente 4%. Profissionais que acompanham a série histórica relatam que o crescimento ocorre de forma semelhante entre meninos e meninas, mas apresenta variações relevantes conforme a idade. Entre menores de dois anos, 18,9% já exibem peso acima do recomendado. Na faixa de 2 a 4 anos a prevalência atinge 14,3%, enquanto na população de 5 a 9 anos sobe para 29,3%, mostrando que o problema tende a se consolidar com o passar da infância.
Especialistas atribuem o quadro principalmente à mudança no padrão alimentar das famílias. Levantamento do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (SISVAN) indica que 49% das crianças com menos de dois anos consomem diariamente produtos industrializados ou bebidas açucaradas. Entre 2 e 4 anos, o percentual cresce para 64%, e permanece elevado entre 5 e 9 anos, alcançando 63%. Biscoitos recheados, salgadinhos, macarrão instantâneo e refrigerantes figuram entre os itens mais presentes na rotina alimentar, segundo a nutricionista Renata Pedruci, da Clínica da Criança.
O sedentarismo reforça o avanço da obesidade infantil. O tempo dedicado a telas, bem como a redução de brincadeiras ao ar livre, diminui o gasto energético diário e contribui para o acúmulo de peso. Profissionais de saúde apontam que muitas crianças passam várias horas seguidas em celulares, televisores ou videogames, enquanto atividades físicas estruturadas, como esportes ou simples brincadeiras em parques, nem sempre compõem a rotina semanal.
Diante do cenário, a Atenção Básica do município realiza triagem regular em postos de saúde. Quando verificado excesso de peso, a criança é encaminhada para o Ambulatório de Nutrição Especializado da Clínica da Criança, onde recebe orientação alimentar individualizada. Dependendo da avaliação, também podem ser ofertados atendimentos com psicólogos, terapeutas ocupacionais ou endocrinologistas. Atualmente, cerca de 60 crianças com obesidade são acompanhadas mensalmente no ambulatório, volume que resulta em aproximadamente 700 consultas ao longo do ano, sem contar os casos monitorados diretamente nas unidades básicas.
Os impactos clínicos do excesso de peso já são percebidos nos consultórios. Aproximadamente 10% dos pacientes infantis avaliados em Três Lagoas apresentam alterações como níveis elevados de colesterol ou triglicerídeos. Casos de esteatose hepática, alterações hormonais e sobrecarga articular também vêm sendo registrados. Segundo profissionais da Clínica da Criança, tais manifestações reforçam a urgência de conter o ganho de peso logo nos primeiros anos de vida.
A prevenção, de acordo com a equipe de saúde, passa por ajustes simples mas consistentes na rotina familiar. A orientação é priorizar alimentos in natura ou minimamente processados, como frutas, verduras, legumes, arroz, feijão e proteínas magras, além de limitar refrigerantes, sucos artificiais e doces. A recomendação inclui ainda a ampliação de atividades físicas desde a primeira infância, com estímulo a jogos ao ar livre e participação em projetos esportivos.
Na esfera escolar, o Programa de Alimentação Escolar da rede municipal oferece refeições baseadas majoritariamente em alimentos frescos. Ainda assim, os especialistas destacam que, fora do ambiente escolar, o consumo de ultraprocessados segue elevado. Para ampliar o acesso a espaços de atividade física, o município mantém praças, parques, academias ao ar livre e projetos esportivos no contraturno. Contudo, profissionais identificam espaço para a criação de políticas públicas adicionais voltadas especificamente à prevenção e ao tratamento da obesidade infantil.
Ao avaliar o panorama local, nutricionistas e demais integrantes da equipe multiprofissional reforçam que o enfrentamento do excesso de peso em crianças requer mobilização conjunta. A participação ativa dos responsáveis, aliada a iniciativas continuadas nas escolas e no sistema de saúde, é apontada como fator decisivo para reverter a tendência de crescimento do sobrepeso em Três Lagoas.









