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Documento vazado expõe racha no PL e menção a pedido de R$ 15 milhões atribuído a Marcos Pollon

Um rascunho interno do Partido Liberal (PL) circulou fora dos limites da direção nesta semana e trouxe à tona detalhes sobre a estratégia da sigla para as próximas eleições, além de críticas reservadas a aliados estaduais. Batizado de “situação nos estados”, o material impresso, marcado por anotações à mão, foi debatido em reunião de cúpula organizada pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que se coloca como pré-candidato à Presidência da República em 2026.

O encontro, realizado a poucos meses do início formal do calendário eleitoral, reuniu o coordenador de campanha de Flávio, senador Rogério Marinho (PL-RN), e o presidente do partido, Valdemar Costa Neto. Segundo as páginas vazadas, o grupo realizou um brainstorming para mapear cenários estaduais e consolidar decisões sobre alianças, recursos e formação de chapas. O nível de detalhamento indica que Flávio já exerce papel central na máquina partidária, inclusive com definições antecipadas sobre a composição no Rio de Janeiro.

Embora o documento procure projetar coesão em torno da candidatura nacional, as anotações expõem tensões nos estados, especialmente no Mato Grosso do Sul. Na região, a direção partidária planeja apoiar a reeleição do governador Eduardo Riedel (PP). Para a disputa ao Senado, aparecem os nomes do ex-governador Reinaldo Azambuja (PL) e do ex-deputado estadual Capitão Contar (PL). Contar é destacado nos comentários manuscritos por apresentar maior lembrança do eleitorado e melhor desempenho em pesquisas internas, fator considerado estratégico pela cúpula.

A principal crise, porém, gira em torno do deputado federal Marcos Pollon (PL-MS), representante da ala mais ideológica do bolsonarismo. À margem de uma das páginas, uma frase escrita a caneta atribui ao parlamentar uma suposta solicitação de recursos para desistir de disputar cargos majoritários: “Pollon (pediu 15 mi para não ser candidato)”. A menção rapidamente gerou reação dentro e fora do partido.

Questionado após o vazamento, Pollon negou veementemente qualquer pedido financeiro e afirmou que não mantém diálogo recente com Valdemar Costa Neto. O deputado classificou o episódio como tentativa de assassinato de reputação, alegando que suas posições não estão à venda e que sua atuação se sustenta em militância, não em acordos de bastidores. Segundo ele, há um complô interno para inviabilizar sua eventual candidatura ao governo estadual ou ao Senado.

A repercussão da anotação levou o próprio senador Flávio Bolsonaro a se manifestar publicamente. O pré-candidato disse que o trecho foi interpretado fora de contexto e explicou que a observação serviria apenas como alerta ao deputado sobre comentários que circulavam nos bastidores. Flávio não identificou o autor da frase nem detalhou como as informações chegaram àquela mesa de discussão.

Até o momento, a direção nacional do PL não abriu investigação formal para apurar a origem das anotações nem a veracidade dos relatos sobre Pollon. Dirigentes admitem reservadamente que o vazamento expôs fissuras internas em um momento considerado sensível, quando a legenda busca engrossar a votação parlamentar e consolidar nomes competitivos nos estados.

O conteúdo também revela um pacto preliminar de divisão de poder dentro do partido: segundo o rascunho, caberia ao ex-presidente Jair Bolsonaro chancelar as candidaturas ao Senado, enquanto Valdemar Costa Neto teria prioridade na escolha dos postulantes aos governos estaduais. Nos bastidores, dirigentes reconhecem que a partilha de influência não elimina disputas locais por recursos do fundo eleitoral nem divergências sobre alianças regionais.

Analistas veem o Mato Grosso do Sul como um teste para a capacidade de articulação do PL. A eventual preferência por apoiar um governador de outra sigla, ao mesmo tempo em que se discute vaga ao Senado dentro do próprio partido, cria rusgas entre grupos que defendem candidatura pura e alas que priorizam acordos pragmáticos. A controvérsia envolvendo Pollon adiciona um elemento de instabilidade porque o deputado conta com apoio de eleitores engajados nas pautas de segurança e armamento, tradicionais no bolsonarismo.

O documento ainda detalha que, em outros estados, a legenda avalia cenários semelhantes, buscando acomodar lideranças locais e ampliar bancadas na Câmara e no Senado. Contudo, não há registros de controvérsias financeiras tão explícitas como a atribuída a Pollon. O episódio, portanto, passa a ser tratado como símbolo da disputa por espaço e financiamento dentro de um partido que tenta manter a base conservadora mobilizada sem romper com aliados do centrão.

À medida que o calendário avança, dirigentes do PL reconhecem a necessidade de fechar chapas até meados de 2025 para garantir tempo de campanha e distribuição de recursos. O vazamento, porém, acendeu o alerta sobre o risco de novos embates internos caso minutas estratégicas continuem escapando da esfera restrita da direção.

Por ora, a legenda evita comentar publicamente eventuais sanções ou mudanças na equipe responsável pelo planejamento eleitoral. Enquanto isso, lideranças regionais aguardam definições que virão das próximas reuniões da Executiva Nacional, onde se espera que o caso Pollon, a conturbada situação no Mato Grosso do Sul e a partilha de recursos entrem oficialmente na pauta.

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