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Campo Grande instala primeiro jardim de chuva público para enfrentar alagamentos

As precipitações registradas na manhã desta segunda-feira, 27, voltaram a expor pontos de alagamento em Campo Grande e reforçaram a urgência de soluções capazes de reduzir o escoamento superficial na área urbana. Em resposta, a prefeitura iniciou a implantação de infraestrutura verde com a construção do primeiro jardim de chuva em espaço público da capital sul-mato-grossense.

A estrutura está localizada na Central de Atendimento ao Cidadão (CAC), na região central, e faz parte de um conjunto de ações de manejo de águas pluviais. O objetivo é reter parte da enxurrada, permitindo que a água infiltre no solo de forma gradual antes de chegar às galerias convencionais, diminuindo a sobrecarga do sistema de drenagem.

O projeto nasce de parceria entre a Universidade Anhanguera-Uniderp e a Secretaria Municipal de Meio Ambiente, Gestão Urbana e Desenvolvimento Econômico, Turístico e Sustentável (Semades). Acadêmicos de Arquitetura e Urbanismo e de Engenharia Civil participaram por meio do programa de extensão “Traços Verdes e Drenagem Urbana Sustentável”, que também recebeu suporte técnico da Associação Brasileira de Arquitetos Paisagistas – ABAP Jovem MS – e da bióloga Christiane Corrêa.

A coordenação técnica ficou sob responsabilidade dos professores Gisele Yallouz, Isadora Taborda e Leandro Martins. Segundo Gisele, o desenho considerou as características topográficas do terreno, o tipo de solo e a intensidade média das chuvas na capital. Além de atender requisitos de engenharia, a proposta buscou integrar paisagismo e função educativa por meio de uma placa que explica ao público o funcionamento do sistema.

Como funciona o jardim de chuva

O jardim de chuva consiste em um canteiro levemente rebaixado, preparado com diferentes camadas drenantes – brita, areia grossa e composto orgânico – recobertas por vegetação adaptada a alternâncias de umidade. Durante chuvas fortes, a água escorre para esse rebaixo, é filtrada pelas camadas abaixo do solo e, gradualmente, reabastece o lençol freático. Com isso, diminui-se o volume encaminhado imediatamente às bocas de lobo e, consequentemente, a probabilidade de alagamentos em vias próximas.

A execução exigiu a retirada do pavimento rígido que cobria parte do pátio do CAC. Em seguida, foram instaladas as camadas de drenagem e realizado o plantio de espécies nativas de porte baixo, escolhidas pela tolerância tanto a períodos encharcados quanto a estiagens. Alunos e professores participaram diretamente das etapas de escavação, compactação do subleito e colocação do substrato vegetal.

Integração entre academia e poder público

Para o secretário municipal de Meio Ambiente, Ademar Silva Junior, a experiência materializa um passo importante na mudança do sistema de drenagem da cidade, tradicionalmente baseado apenas em galerias subterrâneas. Ele destaca que a adoção de alternativas sustentáveis amplia a resiliência urbana, pois combina redução de custos operacionais, benefícios ambientais e participação social.

O envolvimento de estudantes foi apontado como essencial para disseminar conhecimento sobre infraestrutura verde e incentivar pesquisas locais. A professora Isadora Taborda ressalta que a prática em campo complementa o conteúdo visto em sala de aula, fortalecendo a formação profissional voltada a soluções de baixo impacto.

Perspectivas de expansão

Embora represente intervenção pontual, o jardim de chuva instalado no CAC é considerado modelo para futuras obras públicas. A prefeitura planeja monitorar o desempenho hidráulico da estrutura durante a estação chuvosa para avaliar a capacidade de retenção de água, a sobrevivência das espécies plantadas e possíveis ajustes de manutenção.

Com base nesses resultados, a Semades pretende identificar outros locais suscetíveis a alagamentos onde a técnica possa ser replicada, incluindo praças, canteiros de avenidas e áreas de estacionamento. A secretaria também estuda linhas de incentivo para que empreendimentos privados adotem dispositivos semelhantes em seus projetos de drenagem.

O professor Leandro Martins explica que, além de mitigar inundações, jardins de chuva contribuem para regular a temperatura ambiente, aumentar a biodiversidade urbana e filtrar poluentes dos primeiros milímetros de precipitação. “São múltiplos serviços ecossistêmicos prestados por uma obra relativamente simples”, observa.

Contexto das chuvas recentes

Dados do serviço de meteorologia indicam que Campo Grande registra eventos de chuva intensa concentrados em curtos períodos, o que gera picos de vazão difíceis de absorver pelo sistema atual de galerias. Na manhã desta segunda-feira, somaram-se novos episódios de enxurrada que afetaram trechos de ruas e avenidas já mapeados como críticos.

Diante desse cenário, especialistas defendem a combinação de infraestrutura cinza – redes de drenagem subterrânea – com infraestrutura verde, que inclui jardins de chuva, telhados verdes e pavimentos permeáveis. A abordagem integrada busca distribuir a carga hidráulica e ampliar a capacidade de resposta da cidade a eventos climáticos extremos.

A adoção do primeiro jardim de chuva público em Campo Grande, portanto, sinaliza um movimento institucional em direção a práticas sustentáveis de manejo das águas pluviais, centradas na infiltração, retenção temporária e reaproveitamento no próprio terreno. O avanço do projeto dependerá do monitoramento contínuo e da avaliação de custos e benefícios ao longo dos próximos meses de precipitação.

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