O Governo Federal deu início, neste domingo (4), a uma campanha nacional que defende o fim da escala de trabalho 6×1 – regime em que o empregado cumpre seis dias de expediente para folgar apenas um. A proposta centraliza-se na redução da carga horária semanal de 44 para 40 horas, mantendo oito horas diárias e assegurando dois dias consecutivos de descanso, preferencialmente sábado e domingo, sem implicar diminuição salarial. O texto ainda precisa ser debatido pelo Congresso Nacional antes de qualquer mudança efetiva.
Proposta do governo
De acordo com o Executivo, o objetivo é ampliar o tempo disponível para convivência familiar, lazer, cultura e repouso, garantindo melhores condições de saúde física e mental aos trabalhadores. A minuta sugere que os dias de folga sejam definidos por meio de negociação coletiva, considerando as particularidades de cada setor econômico. Dessa forma, a medida pretende se ajustar à realidade de segmentos que funcionam continuamente, como comércio, serviços e indústrias essenciais.
Em termos práticos, a alteração reduziria a quantidade total de horas trabalhadas na semana sem modificar o valor dos salários. Ao preservar a remuneração, o governo argumenta que não haveria perda de poder aquisitivo e que a iniciativa poderia, inclusive, impulsionar a geração de vagas, já que as empresas precisariam adequar seus quadros para cobrir a nova escala de descanso.
Posição do comércio em Três Lagoas
Em Três Lagoas, interior de Mato Grosso do Sul, a medida provoca divisão de opiniões. O presidente do Sindicato do Comércio Varejista, Sueide Silva Torres, avalia que a redução da jornada com manutenção do salário tende a elevar as despesas das empresas. Segundo ele, o setor teria de contratar pessoal adicional ou pagar horas extras para suprir os dias de descanso adicionais, o que impactaria diretamente a folha de pagamento e os encargos trabalhistas.
O representante do varejo destaca, ainda, que a legislação atual já permite acordos entre patrões e empregados por meio de convenções coletivas, instrumento considerado suficiente para tratar questões específicas de jornada no comércio local. Para Torres, a obrigação de conceder dois dias seguidos de folga poderia desequilibrar o fluxo de atendimento aos consumidores, especialmente em períodos de maior movimento, como datas comemorativas e finais de semana.
Outro ponto levantado é a possível repercussão econômica. Na avaliação do sindicato patronal, o aumento de custos inerente à proposta pode comprometer a sustentabilidade de pequenos e médios negócios. Diante desse cenário, Torres acredita que a iniciativa enfrentará resistência no Congresso e poderá sofrer alterações substanciais antes de qualquer aprovação.
Visão dos trabalhadores
Em posição oposta, o presidente do Sindicato dos Empregados no Comércio, Eurides Silveira de Freitas, apoia a campanha federal. Ele ressalta que o número de casos de doenças mentais e transtornos psicossociais associados ao excesso de trabalho cresce de forma preocupante, tornando urgente a adoção de medidas que reforcem o bem-estar dos profissionais.
Freitas esclarece que o fim da escala 6×1 não implica o fechamento das lojas aos fins de semana, mas uma reorganização interna. Com dois dias consecutivos de folga, os empregados poderiam alternar equipes, assegurando a continuidade do atendimento. Na avaliação do sindicato laboral, diversos segmentos já operam com 40 horas semanais, demonstrando que a transição é viável.
O dirigente observa que a entidade vem preparando orientações para trabalhadores e empregadores sobre a eventual adaptação. Entre as ações planejadas estão capacitações sobre escalas, gerenciamento de pessoal e iniciativas voltadas à saúde mental no ambiente de trabalho. Freitas defende que a mudança pode aumentar a produtividade e reduzir afastamentos por motivos de saúde, compensando parte dos custos adicionais.
Próximos passos
A proposta deverá tramitar pelas comissões temáticas da Câmara dos Deputados e do Senado, onde podem ser apresentados substitutivos ou emendas. Durante a discussão legislativa, especialistas em direito do trabalho, representantes sindicais e entidades empresariais serão chamados para audiências públicas, a fim de expor argumentos favoráveis ou contrários.
Enquanto o texto avança nas instâncias federais, o debate ganha força nas bases regionais. Em Três Lagoas, tanto sindicatos quanto empresários acompanham de perto o andamento do projeto, reunindo dados para embasar suas posições. Caso a redução da jornada e o fim da escala 6×1 sejam aprovados, as empresas terão prazo de transição para ajustar contratos e escalas, conforme regulamentação que deverá ser detalhada em lei complementar.
Até que o Congresso conclua a análise, permanece a incerteza sobre prazos e formato final da proposta. Ainda assim, a discussão já influencia negociações coletivas em curso, com categorias avaliando cláusulas que antecipem adaptações. O resultado desse processo poderá redefinir a relação entre trabalho e tempo livre no país, envolvendo equilíbrio financeiro das empresas, saúde dos trabalhadores e competitividade dos diversos setores econômicos.









