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Morte de bebê escancara crescimento da violência contra crianças em Mato Grosso do Sul

A morte de uma menina de 1 ano e 8 meses, ocorrida em Campo Grande sob suspeita de agressão física e abuso sexual, reacendeu o debate sobre a escalada da violência contra crianças no país. O caso levou à prisão do padrasto e da mãe por maus-tratos, trazendo à tona um cenário que especialistas consideram cada vez mais preocupante.

O episódio coincide com o Maio Laranja, campanha nacional que incentiva ações de combate ao abuso e à exploração sexual infantil. Dados divulgados pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania indicam que o Disque 100 registrou mais de 657 mil denúncias de violações de direitos humanos em 2024, aumento de 22,6 % em relação ao ano anterior. Em 2025, o sistema já havia contabilizado mais de 617 mil registros até novembro, sinalizando a manutenção do quadro de alerta.

Quando se observa apenas a violência sexual, o cenário se agrava: estimativas apontam que, a cada hora, sete casos de estupro de vulnerável são comunicados às autoridades brasileiras. Mesmo assim, somente cerca de 10 % desses crimes chegam a ser oficialmente denunciados, o que sugere subnotificação expressiva. Ainda segundo os levantamentos, aproximadamente 80 % dos episódios ocorrem dentro de casa e são cometidos por pessoas próximas à vítima, fator que dificulta tanto a identificação quanto a formalização de queixas.

A psicanalista Viviane Vaz, coordenadora do Projeto Nova Transforma, observa elevação no grau de brutalidade registrado nos atendimentos. “Os níveis de crueldade vêm aumentando”, afirma, destacando que o impacto não se restringe aos profissionais envolvidos na rede de proteção, mas alcança toda a sociedade.

Para a especialista, a repercussão nas redes sociais após crimes semelhantes não basta. Ela defende a adoção de estratégias contínuas de prevenção, iniciadas na primeira infância. Entre as recomendações, está o reforço das conversas em casa sobre limites corporais. Ensinar desde cedo que “ninguém pode tocar no seu corpo” é apontado como ferramenta fundamental para reduzir a vulnerabilidade das crianças.

Viviane também chama atenção para sinais comportamentais que podem indicar situação de risco. Em crianças muito pequenas, esses indícios incluem medo de determinados adultos, retraimento, alterações no sono, choro persistente e regressões, como voltar a fazer xixi ou cocô na roupa. “Mesmo quando não há marcas visíveis, o corpo da criança se expressa por meio do comportamento”, explica.

Durante o Maio Laranja, o Projeto Nova Transforma promove palestras, capacitações e distribuição de materiais educativos em Mato Grosso do Sul. Uma das ações programadas é o lançamento de um livro de prevenção ao abuso sexual traduzido para a língua terena, voltado a crianças de 28 comunidades indígenas. A iniciativa busca ampliar o alcance das informações entre famílias que, muitas vezes, enfrentam barreiras linguísticas ou geográficas para acessar serviços de apoio.

A campanha também enfatiza a importância da denúncia. Casos suspeitos de violência podem ser comunicados de forma anônima ao Disque 100, serviço que funciona diariamente, 24 horas. As ligações são gratuitas e podem ser feitas de qualquer telefone fixo ou celular. Além disso, os relatos são encaminhados aos órgãos competentes, como conselhos tutelares, delegacias especializadas e Ministério Público, fortalecendo a rede de proteção.

Especialistas ouvidos confirmam que o enfrentamento à violência contra crianças depende de um esforço conjunto. Famílias, escolas, instituições de saúde, órgãos públicos e sociedade civil precisam atuar de forma integrada para que sinais de abuso sejam reconhecidos rapidamente e as vítimas recebam atendimento adequado. Entre as medidas defendidas estão a capacitação constante de profissionais de educação e saúde, a criação de protocolos claros de acolhimento e a ampliação de campanhas de conscientização que alcancem diferentes públicos.

Enquanto isso, o caso da bebê de Campo Grande segue sendo investigado pela polícia. A autópsia e os laudos periciais deverão esclarecer as formas de agressão sofridas e auxiliar no processo judicial contra os responsáveis. Para organizações que atuam na proteção à infância, cada novo episódio reforça a urgência de políticas públicas voltadas à prevenção, à denúncia e ao acompanhamento das vítimas.

Em meio ao avanço das estatísticas, o Maio Laranja procura manter o tema em evidência e estimular ações práticas de combate ao abuso infantil. A expectativa de entidades e profissionais é que a mobilização ultrapasse o mês de campanha e se traduza em iniciativas permanentes que salvaguardem os direitos de crianças e adolescentes em todo o país.

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