A morte de João Guilherme Jorge Pires, de 9 anos, depois de passar por sete atendimentos em unidades de saúde de Campo Grande, dominou a sessão da Câmara Municipal nesta terça-feira (19). O tema foi levado à Tribuna Participativa pela Associação de Vítimas de Erros Médicos de Campo Grande, que compareceu acompanhada da família da criança para exigir investigação e responsabilização.
De acordo com o relato apresentado aos vereadores, João Guilherme procurou ajuda médica em diferentes ocasiões e, mesmo após sucessivos retornos, não recebeu o suporte necessário. Documentos do Instituto Médico Odontológico Legal apontam que ele chegou à Santa Casa com um tubo mal fixado, colocado em procedimento anterior. Quando o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) encontrou o paciente, já havia parada cardiorrespiratória; as tentativas de reanimação não evitaram o óbito.
O presidente da associação, Valdemar Moraes de Souza, afirmou que a morte evidencia falhas estruturais na rede pública. Segundo ele, unidades de pronto-atendimento (UPAs) funcionam como enfermarias, com pacientes permanecendo até 48 horas à espera de vaga hospitalar. Ele acrescentou que a falta de profissionais, a sobrecarga de equipes e a escassez de medicamentos obrigam famílias a deixarem as unidades sem o tratamento completo.
Durante a fala na tribuna, Souza reforçou que o caso não deve ser tratado como situação isolada. Para a entidade, a experiência da família de João Guilherme é semelhante à de inúmeros usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) que enfrentam longas esperas, infraestrutura precária e insuficiência de insumos básicos. A associação solicitou que o Legislativo municipal cobre aprimoramento da fiscalização, ampliação de investimentos na rede e divulgação dos resultados das apurações sobre o atendimento dispensado à criança.
O presidente da Câmara, vereador Epaminondas Neto, conhecido como Papy, declarou solidariedade à família e se comprometeu a buscar explicações da Secretaria Municipal de Saúde. Ele ressaltou que o plenário é o espaço adequado para receber as demandas da população e destacou a necessidade de identificar responsabilidades pelo atendimento que resultou na morte do menino.
Autor do convite para a participação da associação na sessão, o vereador Junior Coringa afirmou que o depoimento da mãe de João Guilherme representa a realidade vivenciada por grande parte dos usuários do SUS em Campo Grande. Segundo o parlamentar, o caso amplia a compreensão do Legislativo sobre problemas recorrentes, entre eles superlotação, demora na regulação hospitalar e déficit de recursos humanos.
A presença de familiares e representantes da associação também reforçou críticas à indisponibilidade de leitos pediátricos e à ineficiência do fluxo entre unidades de urgência e hospitais de referência. Parlamentares observaram que, apesar das tentativas de reforma do sistema, dificuldades históricas persistem e tendem a se agravar sem ações coordenadas entre o município, o estado e a União.
Nos próximos dias, a Câmara pretende encaminhar requerimentos à Secretaria Municipal de Saúde solicitando detalhes sobre cada um dos sete atendimentos recebidos por João Guilherme, a escala de profissionais nas datas envolvidas, o abastecimento de medicamentos nas unidades e o protocolo adotado para transferência de pacientes. Os vereadores também planejam realizar visitas técnicas às UPAs e à Santa Casa, além de convidar gestores e profissionais para prestar esclarecimentos em audiências públicas.
A pressão envolve ainda a definição de responsabilidades administrativas e, eventualmente, disciplinares, caso sejam comprovados erros ou omissões. A associação e a família esperam que o inquérito aberto para apurar as circunstâncias da morte resulte em recomendações capazes de reduzir o risco de novos episódios semelhantes. Enquanto isso, o caso de João Guilherme permanece como símbolo das limitações enfrentadas por crianças e adultos que dependem exclusivamente da rede pública de saúde na capital sul-mato-grossense.








