Profissionais de saúde de diferentes regiões do país reuniram-se no último dia 8 de maio, no Hospital Universitário da Universidade Federal da Grande Dourados (HU-UFGD), para discutir o manejo clínico de casos graves de chikungunya. O encontro, organizado em parceria com a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) e integrado à Rede HU Brasil, avaliou evidências recentes que indicam um comportamento mais sistêmico e potencialmente letal do vírus.
A infectologista Andyane Freitas Tetila, do HU-UFGD, abriu o debate destacando que a doença, historicamente associada à dor articular prolongada, tem provocado quadros complexos que incluem colapso circulatório, insuficiência respiratória, alterações metabólicas, comprometimento neurológico, agravamento de doenças crônicas e falência renal. Segundo a médica, o número de internações e a demanda por leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) aumentaram, evidência de que o agente infeccioso pode desencadear resposta inflamatória mais agressiva que a observada em surtos anteriores.
Participaram das discussões a coordenadora da UTI de Infectologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, Ho Yeh Li, e o infectologista da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rafael Galliez. Ambos compartilharam experiências de assistência a pacientes críticos, reforçando a necessidade de reconhecimento precoce das manifestações hiperagudas – período em que o doente ainda não apresenta sinais clássicos, mas já evolui rapidamente para choque, desidratação severa ou falência de órgãos.
Pedro Carvalho, chefe da Divisão Médica do HU-Univasf e voluntário da Força Nacional do SUS (FN-SUS), relatou atendimentos prestados a populações indígenas em Dourados (MS). De acordo com o médico, vários pacientes apresentaram choque circulatório, cetoacidose diabética e outras descompensações metabólicas inesperadas. A experiência, segundo Carvalho, evidenciou que fatores como acesso limitado a unidades de referência, barreiras culturais e condições socioeconômicas podem retardar a procura por ajuda, agravando o prognóstico.
O manejo pediátrico mereceu atenção especial. A intensivista Nancy Karol Giummarresi Torres, do HU-UFGD, descreveu casos de lactentes e crianças que necessitaram de ventilação mecânica e suporte hemodinâmico avançado. Para a médica, a hidratação venosa precisa ser rigorosa, pois a perda de líquidos, combinada à resposta inflamatória, predispõe a insuficiência respiratória rápida nessa faixa etária.
Entre as recomendações consensuais do grupo estão: triagem criteriosa em unidades básicas, encaminhamento imediato de pacientes com sinais de alerta inespecíficos, protocolo de hidratação precoce, monitoramento laboratorial frequente de eletrólitos e função renal, além da integração de equipes multiprofissionais para avaliar complicações neurológicas e cardíacas. Também ficou evidenciada a urgência de expandir pesquisas que esclareçam a fisiopatologia das manifestações extrarticulares e identifiquem biomarcadores capazes de antecipar a gravidade.
O superintendente do HU-UFGD, Hermeto Paschoalick, observou que a identificação de sinais de alarme na chikungunya é menos clara que na dengue, exigindo abordagem individualizada. Segundo Paschoalick, o hospital tem colaborado com secretarias municipais, estaduais e com o Ministério da Saúde em estudos clínicos e epidemiológicos, com o objetivo de aprimorar protocolos de atendimento e reduzir a mortalidade nos casos que progridem de forma atípica.
Outro ponto debatido foi a importância de considerar determinantes sociais no planejamento das ações de saúde, sobretudo em territórios indígenas. Os especialistas defenderam estratégias de comunicação adaptadas à realidade local, qualificação de equipes para atendimento intercultural e oferta de infraestrutura que permita hidratação venosa e monitoramento precoces.
Ao final do encontro, os participantes concordaram que a percepção tradicional da chikungunya como arbovirose restrita à esfera reumatológica já não corresponde ao cenário observado nas unidades hospitalares. A presença crescente de choque, insuficiência respiratória, encefalite, miocardite e falência múltipla de órgãos leva a uma redefinição de prioridades na rede assistencial. Hospitais de referência, como o HU-UFGD, pretendem ampliar leitos de UTI, atualizar protocolos e manter fluxos permanentes de capacitação com o apoio da Sociedade Brasileira de Infectologia e da Força Nacional do SUS.
Para Tetila, a experiência prática das equipes durante a epidemia comprova que a vigilância clínica intensiva, o diagnóstico oportuno e a prontidão hospitalar são decisivos para reduzir complicações e óbitos. “A chikungunya precisa ser monitorada com a mesma atenção dispensada a outras emergências virais”, alertou a infectologista, reforçando o compromisso de manter o debate científico ativo e de compartilhar evidências que orientem políticas públicas eficazes.







