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Polarização política amplia conflitos pessoais e desafia capacidade de diálogo, indica estudo de psicóloga

Em artigo recentemente divulgado, a psicóloga, psicanalista e escritora Beatriz Breves analisa os impactos da polarização política brasileira nas relações interpessoais. Segundo a autora, o distanciamento entre correntes de esquerda e de direita não se restringe ao debate público; estende-se a núcleos familiares, círculos de amizade e casais, gerando rupturas que se intensificam à medida que emoções fortes entram em cena.

O levantamento de Breves observa que a insegurança diante do diferente costuma desencadear reações de defesa. O receio de que ouvir pontos de vista opostos possa abalar convicções pessoais induz algumas pessoas a evitar o diálogo. Esse comportamento, afirma a psicóloga, favorece respostas reativas e julgamentos imediatos, reduzindo a disposição para compreender o argumento alheio.

Embora as opiniões divirjam, a especialista identifica pontos de convergência entre grupos antagônicos. De acordo com o artigo, há valores compartilhados que incluem justiça, dignidade, liberdade e o acesso a direitos elementares, como saúde, segurança e educação. O problema, ressalta Breves, surge quando a forma de alcançar esses objetivos passa a ser encarada como incompatível, transformando parceiros em adversários.

Para ilustrar o fenômeno, a psicóloga recorre à metáfora de um número disposto no chão. Duas pessoas posicionadas em lados opostos podem enxergar figuras distintas: uma visualiza o “6”, a outra o “9”. Ambas, no entanto, descrevem o mesmo símbolo visto de perspectivas diferentes. Transferida para o campo político, a imagem sugere que interpretações podem divergir mesmo quando partem de premissas semelhantes.

Breves amplia a analogia ao propor a união dos dois olhares, que formaria o “69”. Nesse cenário, as visões deixariam de se opor para se complementar, produzindo sentido coletivo maior que a soma das partes. A autora defende que o exercício de compor perspectivas não anula divergências, mas cria um terreno onde elas podem coexistir sem anular o objetivo comum.

O artigo reconhece, porém, que o fator emocional complica o processo. A dificuldade em administrar sentimentos intensos — como raiva, medo ou frustração — alimenta atitudes hostis. Assim, mesmo após um eventual entendimento entre quem vê “6” e quem vê “9”, é possível que surja alguém afirmando enxergar “96”. Para a psicóloga, a multiplicidade de leituras não constitui ameaça, mas sinaliza a complexidade humana e a necessidade de canais permanentes de diálogo.

A análise conclui que ideias podem assumir diferentes formas desde que se mantenham referenciadas por princípios éticos e coerentes. Nesse quadro, a escuta ativa e a curiosidade sobre o posicionamento do outro tornam-se ferramentas centrais para evitar que a polarização se converta em ruptura definitiva.

Beatriz Breves é autora da obra “Eu Fractal – Conheça-te a ti mesmo” e atua como psicóloga, psicanalista e escritora. Suas observações sobre o ambiente político nacional partem da experiência clínica com pacientes que relatam conflitos familiares ou sociais ligados a posicionamentos ideológicos. Para a profissional, o Brasil encara o desafio de transformar embates em encontros, resgatando a capacidade de convivência respeitosa entre visões distintas.

O estudo também sugere que, em meio ao cenário polarizado, a legitimidade da discordância precisa ser preservada. Quando opiniões rivais são encaradas como ameaça ao próprio valor, a tendência é que o indivíduo se isole e reaja com agressividade. Em sentido inverso, a aceitação de que nenhuma perspectiva abrange todas as variáveis favorece a construção de soluções que atendam a maior número de interesses.

Sem apontar prazos ou políticas específicas, a psicóloga destaca que o avanço rumo a um diálogo produtivo depende de esforço individual e coletivo. No plano pessoal, ouvir sem interromper e questionar antes de julgar aparecem como atitudes iniciais. No plano social, ambientes que estimulem a diversidade de vozes, como escolas, instituições culturais e meios de comunicação, são vistos como espaços estratégicos para reduzir tensões e ampliar convergências.

O trabalho de Breves reforça, por fim, que conflitos ideológicos não são intrinsecamente negativos. A existência de interpretações múltiplas pode, segundo a autora, ampliar os horizontes de resposta a problemas comuns. O ponto crítico reside na transformação da diferença em rótulo depreciativo. Ao reconhecer o valor do “6”, do “9” e das composições subsequentes, a sociedade, conclui a psicóloga, aumenta suas chances de manter o debate público saudável e preservar laços pessoais.

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