Três Lagoas consolidou-se como um dos principais polos industriais do Centro-Oeste e detém hoje a terceira maior economia de Mato Grosso do Sul. Nos últimos anos, o crescimento de complexos de celulose e de outros empreendimentos de grande porte alterou a paisagem urbana e projetou o município em nível nacional. Paralelamente, uma rede de micro e pequenos empreendedores avança em diferentes frentes, convertendo a demanda gerada por esse ambiente industrial em novos serviços, empregos e renda.
Dados da Receita Federal indicam a existência de mais de 9 mil microempreendedores individuais (MEIs) ativos em Três Lagoas. No âmbito estadual, micro e pequenas empresas correspondem a cerca de 88 % do total de organizações, somando mais de 350 mil CNPJs. Para especialistas, esses números revelam a dimensão de um segmento que garante circulação de riqueza localmente e diversifica a matriz econômica antes calcada na atividade agropastoril.
Transformação econômica e circulação de renda
Segundo o economista Marçal Rogério Rizzo, professor da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) no campus Três Lagoas, a trajetória de pequenos empresários acompanha a própria evolução do município. De um perfil essencialmente rural, a cidade tornou-se polo de celulose e, gradativamente, de serviços. O docente observa que micro e pequenos empreendedores ocupam lacunas deixadas pela cadeia industrial, prestando assistência a fábricas, trabalhadores e novos moradores, o que contribui para manter recursos no mercado interno local.
Oficina que saiu da garagem
O técnico Juliano Silveira trabalhou dez anos com manutenção de sistemas de ar-condicionado em máquinas agrícolas, caminhões e equipamentos pesados. Ao deixar o emprego formal, investiu a indenização em ferramentas e iniciou atendimentos na própria residência. A demanda avançou, o serviço ganhou escala e, em curto período, tornou-se necessário alugar um galpão. O aumento no volume de ordens de serviço também exigiu a migração do enquadramento de MEI para microempresa (ME). Hoje, a oficina integra a cadeia florestal regional, prestando suporte a indústrias instaladas em Três Lagoas e arredores.
Transporte sobre rodas
O crescimento das fábricas elevou a procura por deslocamento de funcionários. Observando essa necessidade, a empresária Maricele Marques e o marido decidiram adquirir uma van. O negócio, iniciado com fretamento eventual para grupos de turismo, evoluiu para contratos fixos com quatro veículos na rota Três Lagoas–Brasilândia–Bataguaçu, transportando passageiros e encomendas. A expansão se apoia no fluxo constante de trabalhadores que circulam entre municípios devido às unidades de celulose e a empresas associadas.
Cozinhas que viraram empresas
A chegada de profissionais de diversas regiões aumentou a busca por alimentação prática. A empreendedora Raquel Pereira começou produzindo cinco marmitas ao lado de uma amiga; hoje, opera como microempresa e atende um público ampliado de operários, escritórios e moradores. Trajetória semelhante foi percorrida por Vanessa Alves, que manteve um buffet doméstico por 12 anos enquanto trabalhava na rede pública de saúde. Ao optar pelo empreendedorismo em tempo integral, expandiu a estrutura e passou a fornecer refeições para companhias, hospitais e eventos corporativos.
Presença feminina e identidade cultural
Mato Grosso do Sul registra mais de 160 mil mulheres à frente de negócios, cerca de 42 % do total de empreendedores. Nesse cenário, iniciativas como a de Priscila da Silva Dias ganham destaque. Ex-auxiliar de produção, ela abriu um estúdio de tranças que atende moradores locais, migrantes e funcionários das grandes plantas industriais. Além da geração de renda, o serviço reforça a valorização da identidade afro-brasileira, atraindo clientela principalmente por indicação.
Da demissão à frota executiva
Após duas décadas em montagens industriais no Paraná, Lucas Tergolino perdeu o emprego e mudou-se para Três Lagoas. Começou dirigindo carro de aplicativo, identificou oportunidades de transporte corporativo, buscou capacitação no Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e formalizou o empreendimento como MEI. Atualmente, emprega 11 colaboradores e planeja inaugurar, em julho, uma locadora de veículos voltada a empresas da região.
Articulação institucional
Para o Sebrae em Mato Grosso do Sul, casos como os citados ilustram a força da chamada economia circular entre grandes projetos e fornecedores locais. A gerente regional da instituição, Josi Signori, afirma que a entidade promove capacitações, consultorias e eventos de networking a fim de aproximar artesãos, produtores e prestadores de serviços das demandas originadas pela industrialização. A ação objetiva ampliar a competitividade e sustentar, em longo prazo, o motor econômico accionado pelas fábricas.
A combinação de alta produção industrial, demanda de mercado e iniciativa individual transforma estruturas modestas em negócios estruturados. Oficinas, cozinhas, estúdios e frotas de vans se somam às grandes chaminés para compor o quadro econômico de Três Lagoas, demonstrando que o desenvolvimento municipal alcança diferentes escalas e perfis de empreendedores.









