Campo Grande (MS) – Técnicas de melhoramento genético vêm modificando o cenário da pecuária de corte no país, impulsionando ganhos de produtividade, redução de custos e maior rentabilidade para os criadores. O médico-veterinário Naur Barbosa Júnior, em entrevista ao programa “Agro é Massa”, da Rádio Massa FM de Campo Grande, afirmou que o mercado já assimila os resultados dessas inovações e acelera os investimentos em reprodutores e biotecnologias.
Segundo o especialista, a adesão dos pecuaristas a ferramentas de seleção genética avançada deixa de se limitar à busca por qualidade de carcaça e atinge fatores diretamente ligados à eficiência econômica da propriedade. “Melhor conversão alimentar, crescimento mais rápido e rendimento superior significam menor desembolso por arroba produzida”, sintetizou.
Um dos parâmetros usados para aferir o potencial de carcaça é a área de olho de lombo, que indica a musculatura da região nobre do animal e serve como termômetro da capacidade de ganho de peso em confinamento. De acordo com Barbosa, esse e outros critérios, aplicados em programas de avaliação, permitem identificar precocemente indivíduos com desempenho acima da média e orientar acasalamentos mais assertivos.
Para exemplificar o impacto financeiro das novas tecnologias, o veterinário citou resultados obtidos com progênies do touro Nelore Gigante 7 Estrelas. Em testes conduzidos com aproximadamente 1.300 bovinos, os descendentes apresentaram ganho diário superior a dois quilos durante a fase de cocho, rendimento de carcaça entre 57 % e 58 % e incremento de nove arrobas no período de confinamento. Em rebanhos formados por cruzamentos comerciais, o ganho médio costuma ficar em torno de 1,8 quilo por dia.
Ainda que a adoção de biotecnologias envolva dispêndios iniciais expressivos – muitos ligados a insumos precificados em dólar – Barbosa sustenta que o retorno obtido compensa o desembolso. Ele calcula que, no caso avaliado, o custo final da arroba produzida ficou próximo de R$ 137, valor considerado competitivo diante da elevação dos preços gerais de produção.
“O produtor que realiza contas detalhadas percebe que a maior eficiência reverte, no fim das contas, em menor custo unitário”, frisou. Para ele, a principal barreira à difusão das tecnologias é o receio inicial do pecuarista diante do investimento. Porém, à medida que os números de campo se confirmam, a resistência tende a perder força.
O interesse crescente se reflete na procura por material genético. O sêmen do touro Gigante 7 Estrelas já foi contratado para uso comercial, mesmo antes de iniciada a coleta. Conforme Barbosa, a fila de reservas supera a oferta prevista, indicando que a demanda pode ultrapassar a capacidade de fornecimento nos primeiros lotes.

Imagem: Gabriela to
A disseminação de indivíduos provados, associada a programas de seleção criteriosa, tem potencial para elevar os índices médios dos rebanhos nacionais. Com maior ganho de peso em tempo reduzido e carcaças mais valorizadas, a atividade fortalece sua competitividade tanto no mercado interno quanto no externo.
Outro ponto destacado é a adaptação das técnicas a diferentes sistemas de produção. No Centro-Oeste, região que concentra parte expressiva do gado de corte do país, o confinamento em ciclo final ganhou espaço como estratégia para acelerar o acabamento antes do abate. A chegada de animais geneticamente superiores potencializa esse modelo, encurtando o período de cocho e reduzindo o consumo de ração por quilo ganho.
Barbosa também salientou que o uso de reprodutores avaliados não se limita a grandes propriedades. Pequenos e médios criadores podem recorrer a centrais de inseminação artificial e acessar o mesmo padrão genético empregado pelos frigoríficos mais exigentes. “Quanto maior o número de produtores utilizando genética comprovada, mais homogênea fica a oferta, beneficiando toda a cadeia”, acrescentou.
Com dados consistentes e demanda aquecida, a tendência é que o investimento em pesquisa, genômica e programas de melhoramento se intensifique. Para o especialista, a consolidação dessas ferramentas permitirá ganhos adicionais em características como tolerância ao calor, rusticidade e eficiência de conversão de pasto em proteína animal, atributos estratégicos para as condições climáticas brasileiras.
A expectativa do setor é que, ao alinhar produtividade e redução de custos, a genética de alto desempenho ajude a pecuária de corte do Brasil a sustentar a oferta de carne bovina em volumes compatíveis com o crescimento do consumo global, preservando a margem do produtor e atendendo às exigências de qualidade do mercado.







