Áudios e mensagens obtidos pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MP‑MS) mostram dirigentes da Santa Casa de Campo Grande negociando contratos, pagamentos e implantação de sistemas com empresários, sem a devida formalização interna. As conversas, analisadas pelo Grupo Especial de Combate à Corrupção (Gecoc), sugerem que procedimentos legais foram contornados para acelerar a assinatura de acordos que podem ter causado prejuízo ao hospital.
O foco da investigação é o contrato firmado com a Redvalue Tecnologia para a digitalização do acervo hospitalar. Segundo o MP, a contratação ocorreu sem estudo técnico, termo de referência, análise de viabilidade ou demonstração de vantagem econômica, o que viola normas de licitação e gestão pública.
Contratação questionada
Em abril de 2025, Jary de Carvalho Castro informou a Maurício Benites que não seria possível liberar R$ 1,8 milhão de uma só vez porque havia fiscalização, auditoria e acompanhamento do governo. Jary disse ainda que procuraria Rinaldo Romano para verificar como parte do valor poderia ser paga, apesar de já existirem questionamentos sobre a comprovação dos serviços prestados pela Redvalue.
Entre janeiro e 16 de abril de 2025, o Gecoc identificou a digitalização de 1 772 198 páginas, valor estimado em R$ 88,6 mil. Contudo, os pagamentos registrados chegaram a R$ 750 mil, indicando discrepância entre a produção efetiva e o desembolso realizado.
Em outro áudio, Rinaldo Romano pediu o e‑mail da Redvalue e informou que o setor de Compras faria nova solicitação de orçamento, pois a contratação deveria “entrar pelo Compras”. A conversa indica que o procedimento formal foi inserido somente depois de tratativas diretas já mantidas com Maurício Benites.
Sete dias antes da assinatura do contrato, em 22 de outubro de 2024, Rinaldo comunicou a Maurício que “tudo estava certo” e que restavam apenas as assinaturas. Essa sequência reforça a suspeita de que a decisão já havia sido tomada antes da formalização administrativa.
A investigação ainda aponta que as empresas Redvalue, ExBe e Infortech, apresentadas na formação de preços, mantinham vínculos entre si e com Maurício, o que inviabilizaria concorrência efetiva entre fornecedores independentes.
Resistência interna
Em maio de 2025, foi proposta a redução da capacidade mensal de digitalização de três milhões para um milhão de páginas, mantendo o teto de R$ 150 mil mensais. Antes da formalização do pedido, Rinaldo informou a Maurício que o presidente do Comitê de Contratos já conhecia o aditivo e indicaria sua aprovação e assinatura. Posteriormente, a área de custos apontou aumento de 200 % no custo por página, sem demonstração de vantagem econômica para a Santa Casa.
Outra gravação revela resistência de uma funcionária à implantação de um novo sistema. Ao relatar a situação, Maurício disse que a funcionária poderia estar “com eles”, ao que Jary respondeu: “a caneta está com a gente”. Para o MP, a frase indica que eventuais objeções técnicas não seriam suficientes para impedir decisões já tomadas por um grupo que controlava a administração.
Em abril de 2025, Maurício afirmou que precisava da chancela de Jary e Rinaldo para avançar com a implantação de quatro novos sistemas, e que levaria a estratégia a Alir Terra Lima. Em 22 de maio, Rinaldo comunicou que Maurício deveria comparecer à reunião da Diretoria, mas informou que os quatro sistemas já estavam aprovados, sugerindo que a formalização ocorreu após a decisão interna.
O Conselho Fiscal da Santa Casa identificou diferenças entre pagamentos e produção comprovada, pediu apuração das responsabilidades e recomendou a suspensão do contrato com a Redvalue. Apesar da recomendação, a contratação permaneceu vigente. O MP relata ainda dificuldades enfrentadas por órgãos de fiscalização para obter documentos sobre contratos, pagamentos e execução dos serviços, o que complica a auditoria dos recursos públicos.
Os diálogos fazem parte da tese apresentada pelo Ministério Público e serão analisados junto a demais provas colhidas pelo Gecoc. Até o momento, as suspeitas não equivalem a condenação, e os investigados têm direito ao contraditório e à ampla defesa. O caso segue em fase de instrução, com expectativa de que o juiz determine medidas cautelares ou encaminhe o processo para a Justiça Federal, caso se confirme a prática de irregularidades que comprometeram a gestão da Santa Casa.







