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Aumento de moradores em situação de rua desafia Três Lagoas

O fluxo constante de pessoas que chegam a Três Lagoas em busca de emprego tem provocado um crescimento visível do número de cidadãos em situação de rua. A cidade, bem como municípios vizinhos, tornou-se polo de atração por oferecer vagas nas áreas industrial e de serviços, mas parte dos recém-chegados não possui qualificação suficiente para ocupar esses postos e, sem recursos para retornar a suas cidades de origem, acaba permanecendo nas vias públicas.

Estabelecimentos que comercializam alimentos — como supermercados, padarias e restaurantes — registram diariamente a presença de indivíduos pedindo ajuda financeira ou um prato de comida. Em vários pontos do centro e de bairros periféricos, grupos se aglomeram sob marquises de imóveis públicos e privados, utilizando essas áreas como abrigo noturno. A permanência prolongada nesses locais chama a atenção de comerciantes e moradores, que relatam aumento de abordagens para doações.

A administração municipal mantém equipes de assistência social para realizar a chamada “abordagem social”. O procedimento inclui cadastro, oferta de alimentação e tentativa de reinserção familiar, que pode envolver a compra de passagens de retorno. Ainda assim, nem todos aceitam o acolhimento, especialmente aqueles que se desvincularam da família ou que fazem uso frequente de álcool e entorpecentes.

O consumo de drogas aparece como fator adicional de vulnerabilidade. Conforme relatos de autoridades locais, a oferta dessas substâncias se espalhou pela cidade, impulsionada por pontos de venda de fácil acesso. Usuários que não dispõem de renda regular buscam alternativas para financiar o vício e, entre os métodos mais comuns, estão pequenos furtos de cabos elétricos em praças, residências desocupadas e estabelecimentos comerciais.

O material subtraído, principalmente fios de cobre, é repassado a ferros-velhos ou recicladores que operam de forma clandestina. A revenda, feita por valores inferiores ao mercado formal, mantém a dinâmica ilegal e incentiva novas ocorrências. Para conter o ciclo, polícia militar e polícia civil intensificam operações de fiscalização nesses pontos de compra e venda, além de investigações sobre a origem dos produtos recolhidos.

Mesmo com as ações integradas entre forças de segurança e assistência social, o desafio de reduzir a quantidade de pessoas sem moradia tende a permanecer elevado. Projetos de expansão industrial previstos para os próximos meses podem atrair trabalhadores de outras regiões do país. Caso a procura por vagas exceda a oferta e os recém-chegados não contem com rede de apoio, o número de pessoas nas ruas pode aumentar ainda mais.

Especialistas em políticas públicas apontam que a solução passa pela combinação de medidas de curto e médio prazos. Na frente emergencial, albergues temporários e centros de triagem oferecem abrigo, alimentação, higiene e avaliação de saúde. Já no médio prazo, são necessárias iniciativas de capacitação profissional e articulação com empresas locais para absorver parte dessa mão de obra.

O custeio dessas estruturas recai sobre o orçamento municipal, que inclui contratação de equipes multidisciplinares, aquisição de insumos e manutenção de espaços físicos. Segundo técnicos da prefeitura, os recursos disponíveis muitas vezes não acompanham o ritmo de chegada de novos migrantes, o que gera sobrecarga no atendimento. Em paralelo, o poder público busca convênios com Estado e União para ampliar a cobertura dos programas sociais.

Para comerciantes e moradores, a presença de pessoas em situação de rua transformou-se em preocupação diária. Além de episódios de furto, alguns estabelecimentos relatam queda no movimento de clientes, que evitam áreas onde ocorre maior concentração de pedintes. Em resposta, associações comerciais solicitam reforço de patrulhamento e campanhas de conscientização, ressaltando a importância de encaminhar doações a entidades reconhecidas em vez de repassá-las diretamente na via pública.

Enquanto o cenário não se estabiliza, a cidade tenta conciliar o caráter acolhedor de quem busca oportunidades com a necessidade de garantir segurança, limpeza urbana e dignidade humana. A eficácia das ações conjuntas entre assistência social e forças de segurança será determinante para controlar o crescimento desse grupo vulnerável e evitar que a crise humanitária se agrave com a retomada de novos empreendimentos industriais.