O Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas) de Três Lagoas, no interior de Mato Grosso do Sul, intensificou as ações da campanha “Faça Bonito” neste mês de maio, período em que se celebra o Dia Nacional de Combate ao Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, em 18 de maio. A mobilização ocorre em meio a um cenário de alerta: de janeiro a maio, o município contabilizou 71 ocorrências de violência sexual contra menores, número que já corresponde a mais da metade dos 127 registros computados ao longo de todo o ano passado.
Embora o trabalho de prevenção e orientação seja realizado de forma contínua, maio concentra atividades extras para ampliar o alcance das mensagens de proteção. O público prioritário são as próprias crianças e adolescentes, considerados os agentes centrais na identificação de situações de risco e na busca de ajuda. Para isso, equipes multidisciplinares visitam unidades de ensino com palestras adaptadas à faixa etária.
Entre as iniciativas programadas, o Creas promove encontros no Serviço Social do Comércio (Sesc) voltados a estudantes do 3º ao 9º ano e organiza rodas de conversa com motoristas que atuam na assistência social. O objetivo é fortalecer a rede de apoio local, capacitando diferentes segmentos da comunidade a reconhecer sinais de abuso e oferecer encaminhamento adequado.
Um desafio recorrente, segundo os técnicos do Creas, é garantir que a criança compreenda quando está sendo vitimada, já que o abuso pode ser disfarçado de gestos aparentemente inofensivos. Para facilitar essa compreensão, a abordagem nas escolas utiliza recursos lúdicos, como histórias e ilustrações, que distinguem formas de afeto saudáveis de toques inadequados. A orientação inclui instruções claras sobre a importância de relatar qualquer situação desconfortável a um adulto de confiança.
Dados locais indicam que a maioria dos episódios ocorre no ambiente familiar ou entre pessoas próximas, como tios, avós e amigos. Diante disso, o Creas enfatiza a necessidade de pais e responsáveis observarem mudanças repentinas de comportamento. Entre os sinais de alerta estão queda no desempenho escolar, isolamento, regressão a hábitos infantis (chupar dedo ou voltar a urinar na cama) e variações de humor sem causa aparente. Qualquer alteração significativa deve ser investigada com escuta atenta e validação do que a criança relata.
A campanha também reforça os canais disponíveis para denúncia. A principal via é o Disque 100, serviço nacional gratuito e sigiloso. Outras portas de entrada incluem o Conselho Tutelar e a Delegacia de Atendimento à Mulher (DAM). Em Três Lagoas, todas as notificações convergem para o Creas, responsável pelo primeiro atendimento especializado.
Após o registro, a vítima é avaliada por uma equipe formada por psicólogos e assistentes sociais, que identifica o grau de impacto emocional e as necessidades imediatas. Quando há indícios de abalo psicológico significativo, o menor é encaminhado para acompanhamento contínuo na rede pública de saúde. Paralelamente, familiares recebem orientações sobre medidas de proteção, direitos garantidos e suporte jurídico, quando necessário.
Além do atendimento direto, o Creas realiza formações com profissionais da educação, saúde e segurança pública, ampliando a capacidade de detecção precoce dos casos. A meta é criar um fluxo padronizado de informações que impeça a revitimização e acelere a adoção de estratégias de proteção.
O avanço das estatísticas preocupa gestores municipais. Com 71 notificações apenas nos cinco primeiros meses, a projeção é de aumento no total de casos até dezembro, caso nenhum fator de contenção seja implementado. Por esse motivo, a campanha “Faça Bonito” prioriza a divulgação de orientações simples: observar, escutar, acreditar na palavra da criança e acionar imediatamente os órgãos competentes.
Para os profissionais envolvidos, romper o silêncio continua sendo o passo mais importante. A violência sexual infantil, frequentemente praticada em contextos de confiança, depende do envolvimento da comunidade para ser identificada. Ao compartilhar informações e fortalecer a rede de proteção, o município busca reduzir a subnotificação e oferecer respostas mais rápidas às vítimas.
O Creas mantém atendimento de segunda a sexta-feira, em horário comercial, e orienta que situações emergenciais sejam encaminhadas à Polícia Militar pelo telefone 190. Tanto os cidadãos que possuem informação concreta quanto aqueles que apenas suspeitam de abuso são incentivados a denunciar. Segundo a equipe técnica, uma ligação anônima pode interromper um ciclo de violência e permitir o início da recuperação física e emocional da criança ou adolescente envolvido.
Com o reforço das ações em maio, Três Lagoas pretende ampliar a consciência coletiva sobre o tema e incentivar que cada morador assuma a responsabilidade de vigiar, prevenir e denunciar. A expectativa é que a soma de esforços entre famílias, escolas, serviços públicos e entidades da sociedade civil contribua para reverter a tendência de alta e garantir um ambiente mais seguro para crianças e adolescentes.









