A aproximação da Copa do Mundo costuma intensificar expectativas em torcedores de todas as idades. Para as crianças, porém, o impacto emocional tende a ser maior, segundo a psicóloga Maria Celina Ferreira Goedert, representante da Psicologia do Esporte no Conselho Regional de Psicologia de Mato Grosso do Sul. Em entrevista concedida na sexta-feira (12) à Rádio Massa FM Campo Grande, ela afirmou que o período do torneio pode funcionar como recurso de educação emocional dentro das famílias.
Maria Celina observou que eventos esportivos são percebidos pelos pequenos como verdadeiros espetáculos. Ídolos do futebol ganham contornos de heróis, e a narrativa construída em torno de convocação, partidas e resultados se torna altamente significativa. Nessa atmosfera, alegrias, ansiedades e decepções se manifestam com intensidade, oferecendo aos adultos oportunidades para orientar sobre reconhecimento e manejo das próprias emoções.
De acordo com a especialista, um dos maiores desafios para pais e responsáveis é introduzir a noção de imprevisibilidade inerente ao esporte. Ela lembrou que, diferentemente de histórias com roteiros pré-definidos, partidas de futebol não oferecem desfecho garantido. Trabalhar essa ideia antes mesmo do início da competição ajuda as crianças a entender que vitórias, derrotas e acontecimentos inesperados fazem parte do jogo.
A psicóloga enfatizou que derrotas esportivas podem servir como lição prática de enfrentamento de frustrações. No cotidiano, situações semelhantes voltarão a ocorrer em diferentes contextos, e a experiência adquirida com o futebol tende a ampliar o repertório emocional dos jovens torcedores. Maria Celina ressaltou que a função da família não é minimizar ou descartar sentimentos, mas acolher a criança e explicar o que está acontecendo no âmbito emocional.
Quando a tristeza ou a decepção surge após um revés da seleção favorita, atitudes como ouvir e dialogar ganham relevância. Na avaliação da representante do Conselho Regional de Psicologia, frases que relativizam o episódio — por exemplo, “é só um jogo” — podem reduzir a importância que o momento assume para o público infantil. Reconhecer a legitimidade do sentimento, segundo ela, fortalece a autoconfiança e favorece o desenvolvimento de habilidades socioemocionais.
Maria Celina recomendou manter a comunicação aberta como estratégia para preservar a saúde mental dos filhos. Conversas francas sobre vitórias, derrotas e retomada de metas permitem compreender que resultados integram um processo contínuo. A profissional reforçou que o tema extrapola o universo esportivo; trata-se de lidar com sonhos, expectativas e obstáculos presentes em diversas áreas da vida.
Durante a entrevista, a psicóloga também orientou pais e responsáveis a acompanharem com atenção as reações das crianças ao longo da Copa do Mundo. Identificar sinais de ansiedade excessiva ou tristeza prolongada possibilita intervir de forma apropriada. Ela lembrou que o ambiente familiar tem papel central na construção de referências emocionais e que o diálogo constante prepara melhor os jovens para desafios futuros.
Especialistas em comportamento infantil concordam que eventos esportivos de grande porte mobilizam milhões de pessoas e, consequentemente, criam cenários propícios para aprendizado coletivo. No caso das crianças, a convivência com adultos engajados — seja comemorando, seja lamentando — oferece exemplos concretos de como lidar com diferentes resultados. Nesse sentido, atitudes coerentes dos responsáveis reforçam mensagens transmitidas em palavras.
No Mato Grosso do Sul, iniciativas de orientação psicológica relacionadas ao esporte ganham destaque em meios de comunicação durante períodos de competições internacionais. A participação de profissionais, como a de Maria Celina na rádio, busca ampliar a conscientização sobre cuidados emocionais desde a infância. A psicóloga salientou que, ao reconhecer sentimentos e expressá-los de maneira saudável, a criança desenvolve recursos para enfrentar frustrações sem comprometer o bem-estar.
Com a Copa do Mundo mobilizando atenções em escala global, a recomendação dos especialistas é transformar cada partida em uma ocasião de diálogo. Ao mostrar que reveses fazem parte da experiência esportiva — e, por extensão, da vida —, famílias podem contribuir para a formação de adultos mais resilientes e preparados para desafios futuros. O entendimento de que vitórias e derrotas compõem um ciclo contínuo sustenta a abordagem defendida pela psicologia do esporte.









