Corumbá e Campo Grande concentram, atualmente, a principal rota de contrabando de migrantes que atravessam Mato Grosso do Sul rumo a São Paulo, segundo o relatório “Contrabando de Migrantes no Brasil: uma análise de inteligência”. Produzido pela Agência Brasileira de Inteligência (ABIN) em parceria com a Organização Internacional para as Migrações (OIM) e divulgado em 2026, o documento detalha como o estado sul-matogrossense, por sua posição geográfica e fronteira extensa com Bolívia e Paraguai, tornou-se corredor estratégico para deslocamentos irregulares.
A análise dedica um capítulo específico às dinâmicas locais. De acordo com o levantamento, Corumbá responde pelo maior número de entradas e saídas não autorizadas em Mato Grosso do Sul. Nesse município, operam redes que recrutam principalmente cidadãos bolivianos interessados em vagas na indústria têxtil paulista, muitas vezes em fábricas clandestinas instaladas na capital paulista e em seu entorno.
Captação dos migrantes
O recrutamento começa em Puerto Suárez e Puerto Quijarro, no território boliviano, onde aliciadores utilizam redes sociais, rádios online e terminais rodoviários para oferecer o deslocamento. A rede envolve, historicamente, bolivianos e brasileiros, mas registros recentes indicam participação de integrantes de outras nacionalidades.
Para a travessia da fronteira, os migrantes utilizam o Posto Esdras da Receita Federal ou caminhos informais, conhecidos como “cabriteiras”. Entre esses percursos alternativos, a Trilha do Gaúcho figura entre os mais usados. O trecho até Corumbá, de aproximadamente 25 quilômetros, costuma ser realizado a pé, em vagonetas ou táxis, mediante cobrança média de R$ 50 por pessoa.
Etapas em Corumbá
Ao chegarem à cidade, os migrantes permanecem em casas de apoio, galpões ou garagens que funcionam como pontos de concentração. Desse local, embarcam em ônibus clandestinos com destino a São Paulo. Os veículos, geralmente antigos e com pouca manutenção, partem majoritariamente à noite, cobram cerca de R$ 200 — valor inferior aos R$ 350 de linhas regulares — e chegam a circular de oito a dez unidades por dia.
Além da rodoviária, a MS-228, conhecida como Estrada Parque, é usada para embarques e desembarques, com suporte de taxistas. O esquema recorre a olheiros, batedores e comunicação constante para evitar barreiras de fiscalização, prática semelhante à empregada em outros crimes transfronteiriços no estado.
Campo Grande como ponto de passagem e retenção
A capital sul-matogrossense aparece no relatório como segundo centro de operação. Em janeiro de 2025, uma ação de resgate encontrou 70 bolivianos, entre eles mulheres e crianças, mantidos em cárcere privado em Campo Grande. Durante uma parada da viagem, o grupo foi obrigado a pagar R$ 150 por pessoa para recuperar pertences retidos pelos facilitadores.
O documento registra indícios frequentes de tráfico de pessoas, como retenção de documentos, desconhecimento do destino final e promessas enganosas de trabalho. Embora a legislação diferencie contrabando de migrantes, tráfico de pessoas e condições análogas à escravidão, a sobreposição desses delitos gera dificuldades na apuração e no julgamento dos casos.
Condições no destino
Em São Paulo, parte significativa dos bolivianos acaba submetida a jornadas extenuantes, alojamentos precários e remuneração irregular na cadeia de confecção. O relatório enfatiza que os migrantes, enquanto sujeitos de direitos, não são criminalizados pelo deslocamento, mas se expõem a alto risco de exploração, violência e condições degradantes ao recorrer a serviços clandestinos.
Panorama nacional
A publicação da ABIN e da OIM avalia ainda cenários em Acre, Roraima, Amazonas, Rondônia, Paraná, Rio Grande do Sul e São Paulo. Em âmbito nacional, aponta crescimento de fluxos irregulares em diversas fronteiras e menciona o retorno de brasileiros deportados dos Estados Unidos, muitos dos quais utilizaram redes de contrabandistas para a viagem de ida.
Embora o contrabando de migrantes ocorra em todo o Brasil, Mato Grosso do Sul se destaca pela combinação de fatores logísticos: fronteiras terrestres extensas, divisas com cinco outros estados e presença de rotas consolidadas. Essa estrutura facilita a circulação de ônibus, vans e táxis utilizados pelas organizações criminosas.
Objetivo do estudo
Ao reunir informações de inteligência, o relatório pretende subsidiar políticas públicas que promovam a migração regular, ordenada e segura. O texto ressalta a necessidade de reforço na fiscalização, melhoria nas condições de trabalho e conscientização dos potenciais migrantes sobre os riscos envolvidos nas viagens ilegais.
Também recomenda ações integradas entre órgãos federais, estaduais e municipais, além de cooperação com governos estrangeiros para desarticular redes de facilitação e reduzir episódios de exploração. Segundo a análise, a efetividade dessas medidas depende da combinação de monitoramento fronteiriço, assistência humanitária e oportunidades de regularização que desencorajem o uso de rotas clandestinas.









