Oito universitários do Reino Unido desembarcam nesta semana no Pantanal sul-mato-grossense para integrar o programa Immerse Pantanal, uma escola de verão interdisciplinar de duas semanas que pretende avaliar os principais desafios ambientais do bioma. A iniciativa, promovida pela Universidade de Birmingham em parceria com a Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS), reúne jovens britânicos e brasileiros – entre eles estudantes de comunidades indígenas e tradicionais – com o objetivo de formular propostas de mitigação e adaptação às mudanças climáticas na região.
Os participantes britânicos foram selecionados em processo interno da instituição inglesa e representam diferentes cidades: Maya Kotey-Wright (Salford), Lucy Shepherd (Brackley), Willow Baker (Harrogate), Jake Windsor (Walthamstow), Ava Prescott (Bolton), Oliver Ashton (Dorchester), Kimberly Gichuki (Liverpool) e Milla Spyczak-Grove (Coventry). Ao longo da experiência, eles atuarão em grupos mistos com colegas brasileiros, compartilhando conhecimentos científicos, saberes locais e práticas ancestrais.
Imersão prática no coração do bioma
Com status de Reserva da Biosfera e Patrimônio Mundial concedido pela Unesco, o Pantanal se estende por mais de 181 mil quilômetros quadrados entre Brasil, Bolívia e Paraguai. A maior planície alagável tropical do planeta abriga elevada concentração de onças-pintadas, jacarés, capivaras e cerca de 650 espécies de aves. Nos últimos anos, porém, o ecossistema tem enfrentado secas prolongadas, incêndios de grandes proporções e a expansão da agricultura intensiva, fatores que ameaçam sua biodiversidade e as populações que dependem dele.
Durante a estadia, os estudantes farão expedições de campo para mapear impactos da estiagem, identificar áreas afetadas pelo fogo e avaliar conflitos entre produção agropecuária e conservação. As atividades incluem coleta de dados, entrevistas com moradores locais, oficinas sobre manejo sustentável e visitas a propriedades rurais que adotam boas práticas ambientais. Ao término, cada equipe deverá apresentar um plano de ações viáveis para reduzir riscos climáticos e fortalecer a resiliência socioecológica do bioma.
Produção de conteúdo e troca acadêmica
Além dos estudos práticos, o cronograma prevê elaboração de ensaios acadêmicos e curtas-metragens documentais. O material produzido servirá de base para relatórios conjuntos entre as universidades parceiras, a serem disponibilizados a gestores públicos, organizações não governamentais e comunidades pantaneiras. A perspectiva é que os resultados orientem políticas locais de prevenção a incêndios, gestão hídrica e uso sustentável do solo.
Embora ainda esteja no início de sua trajetória universitária, Milla Spyczak-Grove, aluna de Artes Liberais e Ciências, afirmou antes do embarque que a oportunidade deve proporcionar experiências de pesquisa aplicadas à vida real, algo considerado essencial para sua formação. Declarações semelhantes foram registradas entre colegas que veem na viagem a chance de compreender, in loco, como diferentes saberes podem convergir na solução de problemas globais.
Origem e expansão do programa
O Immerse Pantanal integra a série Immerse Brazil, conjunto de iniciativas da Universidade de Birmingham voltadas à aprendizagem experiencial em território brasileiro. Em 2023, a instituição promoveu ação semelhante na Amazônia, cujos resultados motivaram a expansão do projeto para o Pantanal. A nova edição surgiu após visita do professor Angelo Martins Junior, codiretor do Brazil Institute da universidade, à UEMS em dezembro de 2025. Na ocasião, reuniões e palestras envolvendo pesquisadores de ambas as instituições definiram as bases do modelo colaborativo agora implementado.
Para a equipe organizadora, a presença de estudantes de diferentes áreas – de ciências biológicas a humanidades – amplia a capacidade de análise dos fenômenos ambientais, pois permite observar não apenas aspectos ecológicos, mas também sociais, econômicos e culturais. Entre os temas propostos estão estratégias de prevenção a incêndios, adaptação de sistemas produtivos a regimes hidrológicos irregulares, valorização do turismo comunitário e fortalecimento de cadeias de valor sustentáveis.
Resultados esperados e continuidade
Ao término das duas semanas, os participantes retornarão às suas universidades com relatórios preliminares e registros audiovisuais. Em Birmingham, o material será tratado em oficinas adicionais que deverão gerar artigos, apresentações em conferências e recomendações a órgãos internacionais. Já na UEMS, docentes e discentes pretendem incorporar as conclusões aos programas de extensão que atendem comunidades pantaneiras.
Os organizadores planejam manter o intercâmbio em edições anuais, alternando temas e regiões brasileiras. A meta é estabelecer uma rede permanente de jovens pesquisadores aptos a enfrentar desafios climáticos em ambientes de alta biodiversidade. Enquanto isso, a experiência no Pantanal deve reforçar a visão de que soluções sustentáveis exigem colaboração interdisciplinar e diálogo entre diferentes culturas e formas de conhecimento.









