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Falta de informação e segurança jurídica concentram maiores obstáculos para mulheres no agronegócio, apontam participantes do RCN Agro 2026

O primeiro painel da 6ª edição do RCN Agro 2026, realizado na manhã desta terça-feira em Campo Grande (MS), reuniu quatro produtoras rurais para discutir os desafios enfrentados pelas mulheres no setor agropecuário. Ao longo do encontro, elas destacaram a carência de informação, a necessidade de segurança jurídica e a importância da qualificação profissional como pontos centrais para o fortalecimento do segmento.

Mônica Marchett, pecuarista, apontou a “falta de comunicação interna e externa” como um dos entraves que limitam o avanço da atividade. Para ela, difundir dados sobre sustentabilidade e eficiência dos sistemas de produção é fundamental para atrair jovens, manter colaboradores motivados e ampliar a compreensão da sociedade urbana sobre o papel do campo na economia.

Na mesma linha, Mônica Riedel afirmou que o desconhecimento sobre o agronegócio não se restringe às áreas rurais. Segundo a produtora, estudantes que vivem próximos a grandes propriedades muitas vezes ignoram processos básicos de produção. Ela defendeu estratégias de aproximação com escolas e comunidades para reduzir a distância entre cidade e campo.

O debate também abordou questões ligadas à equinocultura. Mônica Ribeiro, criadora de cavalos, lembrou que a cadeia movimenta mais de R$ 35 bilhões no Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro e gera milhões de empregos diretos e indiretos. Para ampliar esse impacto, ela defendeu a oferta de cursos técnicos voltados à mão de obra que atua em fazendas e centros de treinamento, ressaltando que o cavalo continua sendo ferramenta essencial em diversas etapas da produção.

Entre os fatores que pressionam o agronegócio, a advogada especializada Thaís Faleiros citou quebras de safra, índices elevados de inadimplência, encarecimento de insumos como fertilizantes e diesel e, sobretudo, a ausência de segurança jurídica. Ela avaliou que, sem um ambiente regulatório estável e gestão profissionalizada, os produtores enfrentam dificuldade para planejar investimentos e garantir a continuidade dos negócios.

O tema sucessão familiar surgiu como elemento recorrente ao longo das exposições. Para Faleiros, o equilíbrio entre família, patrimônio e operação produtiva depende da participação ativa de mulheres na definição de valores e na preparação da próxima geração. As painelistas concordaram que a transmissão de conhecimento deve começar cedo, envolvendo filhos e colaboradores em tarefas práticas e na tomada de decisões.

A conciliação da carreira no campo com a maternidade também entrou na pauta. Todas as convidadas relataram experiências que combinam trabalho intenso e criação dos filhos. Riedel contou que adiou a maternidade por quatro anos após assumir a gestão da fazenda e destacou que a rotina rural lhe permitiu acompanhar de perto o desenvolvimento das crianças. Marchett lembrou que levou o filho, Pedro, a exposições desde a infância, o que despertou nele interesse pelas atividades agropecuárias. Já Ribeiro citou a conquista de um título nacional enquanto estava grávida, sempre com o apoio da família. Faleiros, mãe de três, avaliou que a maternidade acrescenta maturidade e reforça a rede de colaboração entre mulheres no meio rural.

Ao final do debate, as participantes apontaram caminhos de capacitação considerados prioritários. O Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) foi indicado por todas como principal porta de entrada para quem busca formação técnica gratuita em Mato Grosso do Sul. Elas também recomendaram a participação em entidades como a Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul (Famasul), sindicatos rurais e comissões de jovens, além do início precoce de estágios durante a graduação como forma de acelerar o aprendizado prático.

O painel “Mulheres no Agro” abriu a programação do RCN Agro 2026, evento que, ao longo do dia, discute tendências, oportunidades e gargalos do agronegócio sul-mato-grossense. Outras mesas abordarão tecnologia, sustentabilidade, crédito rural e mercado externo, reunindo representantes de instituições financeiras, pesquisadores e produtores de diferentes cadeias produtivas.

A iniciativa marca a sexta edição do encontro, que se consolidou como espaço de troca de experiências e apresentação de soluções para o setor. Embora os desafios apontados pelas painelistas sejam complexos, elas consideram que o fortalecimento da comunicação, o investimento em qualificação e o reforço da segurança jurídica podem criar condições mais favoráveis para a permanência de mulheres e jovens no campo, contribuindo para a competitividade do agronegócio brasileiro.