O fim de semana marcado por temperaturas atípicas para Campo Grande mobilizou o protocolo municipal Inverno Acolhedor e resultou no atendimento a 170 pessoas em situação de vulnerabilidade no Parque Ayrton Senna. A ação, disparada sempre que a previsão aponta 12 °C ou menos, foi acionada após o termômetro registrar mínima de 5,1 °C e sensação térmica de –3,1 °C durante a madrugada, segundo o meteorologista Natálio Abrahão, da Uniderp.
Na prática, o ponto de apoio instalado pela prefeitura funcionou em caráter emergencial nas noites de sábado (9) e domingo (10). No primeiro dia, 90 pessoas aceitaram passar a noite no local — 80 homens e 10 mulheres. Entre elas, as equipes identificaram cinco idosos, dois migrantes e quatro animais de estimação. Ainda assim, dez pessoas optaram por permanecer nas ruas.
Na noite seguinte, o fluxo foi semelhante. Outras 80 pessoas, sendo 70 homens e 10 mulheres, recorreram ao abrigo. O balanço também indicou a presença de cinco idosos, quatro migrantes e quatro animais. Seis indivíduos recusaram o acolhimento, mesmo com o clima adverso.
O volume de atendimentos reforçou a preocupação da Secretaria de Assistência Social (SAS), responsável pela operação. A pasta informou que, em 2024, ajustou o modelo de assistência para evitar que os acolhidos retornem às ruas ao longo do dia. Após a pernoite e o café da manhã, os usuários são encaminhados, nos dias úteis, ao Centro POP, onde podem tomar banho, realizar refeições e receber encaminhamentos a serviços de saúde, emprego e benefícios sociais. Aos fins de semana, o destino é a Unidade de Acolhimento Institucional para Adultos e Famílias (Uaifa), que oferece estrutura semelhante.
Com o reforço da dinâmica diurna, a equipe espera reduzir a resistência de parte do público-alvo. Segundo a SAS, mesmo nos períodos de frio mais intenso, há registro significativo de recusas ao acolhimento, em especial entre pessoas que se adaptaram à rotina nas ruas ou apresentam problemas relacionados a saúde mental e dependência química. O protocolo prevê abordagens sucessivas, realizadas por assistentes sociais, educadores e guardas municipais, na tentativa de convencer esses indivíduos a aceitar o suporte temporário.
Para acionar o serviço, a população pode ligar para o número 156 ou contatar diretamente a Central de Abordagem Social pelos telefones (67) 99660-6539 e 99660-1469, disponíveis 24 horas. As ligações são registradas e encaminhadas a equipes móveis que percorrem a cidade durante todo o período de vigência do Inverno Acolhedor.
Embora o Parque Ayrton Senna concentre a ação emergencial, o município mantém outros equipamentos que oferecem acolhimento permanente. De acordo com a Assistência Social, a rede institucional abriga famílias, crianças, adolescentes, adultos desacompanhados e pessoas idosas em diferentes modalidades, mas a procura cresce em períodos de frente fria. Por isso, a prefeitura adota a estrutura móvel no inverno para ampliar a capacidade e dar resposta rápida às ondas de frio.
Além de colchonetes, cobertores e kits de higiene, o ponto de apoio fornece refeições noturnas, café da manhã e espaço reservado para animais de estimação. A inclusão dos pets tem sido apontada pela secretaria como fator que contribui para aumentar a adesão, pois muitos tutores em situação de rua se recusam a ser separados dos companheiros animais.
A previsão de novas madrugadas geladas mantém o protocolo ativo pelos próximos dias. Caso as temperaturas se elevem acima de 12 °C de forma consistente, o acolhimento emergencial será suspenso até a próxima queda acentuada. Enquanto isso, equipes de assistência, saúde, segurança pública e voluntários trabalham de forma integrada para monitorar pontos da cidade onde há maior concentração de pessoas em situação de rua.
Segundo a administração municipal, o objetivo principal do Inverno Acolhedor é reduzir riscos de hipotermia e demais complicações associadas ao frio extremo, garantindo condições mínimas de segurança e dignidade a quem vive nas ruas. A estratégia complementa as políticas de longo prazo de enfrentamento à vulnerabilidade social em Campo Grande, mas permanece dependente da colaboração da sociedade para identificação e encaminhamento dos casos durante o inverno.









