A aceleração dos preços de combustíveis e alimentos voltou a pesar no orçamento das famílias brasileiras em abril. Segundo dados divulgados nesta terça-feira (28) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) subiu 0,89% no mês, percentual superior ao observado em abril do ano passado (0,44%) e o mais elevado desde fevereiro deste ano, quando o indicador marcou 1,23%.
No acumulado de 12 meses, a prévia da inflação oficial alcançou 4,37%, acima dos 3,90% verificados até março. Embora o resultado continue dentro do intervalo de tolerância da meta de inflação de 2024 — fixada em 3% com margem de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo — a trajetória de alta exige atenção, já que combustíveis e itens alimentícios têm grande peso no orçamento das famílias.
Alimentação registra maior contribuição individual
Dos nove grupos que compõem o IPCA-15, alimentação e bebidas exerceu o maior impacto individual no índice de abril, com avanço de 1,46% e contribuição de 0,31 ponto percentual. A alta foi impulsionada, sobretudo, pelos produtos consumidos no domicílio, que passaram de 1,10% em março para 1,77% neste mês.
Entre os itens com aumentos mais expressivos destacam-se cenoura (25,43%), cebola (16,54%), leite longa vida (16,33%) e tomate (13,76%). As carnes também apresentaram elevação, embora menos intensa, de 1,14%. Fora de casa, a alimentação ficou 0,70% mais cara, ritmo duas vezes maior que o anotado em março.
Economistas atribuem a pressão nos preços a fatores sazonais, como a entressafra, que reduz a oferta de produtos perecíveis, além de custos logísticos ainda elevados. No caso do leite, a menor produção no campo tem sido apontada como motor da recente escalada.
Combustíveis lideram pressões em transportes
O grupo transportes avançou 1,34% e respondeu por 0,27 ponto percentual do IPCA-15 de abril. Dentro desse conjunto, os combustíveis subiram 6,06%. A gasolina, item mais consumido pela população entre os 377 pesquisados, aumentou 6,23% e, sozinha, adicionou 0,32 ponto percentual ao índice geral. O óleo diesel registrou alta ainda mais intensa, de 16%, porém com impacto menor em razão do peso reduzido no orçamento familiar.
O encarecimento dos combustíveis reflete principalmente o cenário externo. A escalada do conflito envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel elevou o risco de restrições no Estreito de Ormuz, corredor que, antes da tensão, respondia por cerca de 20% do fluxo mundial de petróleo e gás. A perspectiva de menor oferta global pressiona as cotações internacionais e, por consequência, atinge o mercado brasileiro, onde gasolina e diesel são precificados de acordo com as variações do barril no exterior.
Para atenuar esse choque, o governo federal vem adotando medidas como reduções temporárias de tributos e subsídios direcionados a produtores e importadores. Especialistas, contudo, avaliam que os efeitos dessas iniciativas são limitados no curto prazo e não impedem a transmissão dos reajustes para o consumidor final.
Demais grupos também registram aumentos
Além de alimentação e transportes, outros grupos apresentaram variações positivas relevantes. Saúde e cuidados pessoais subiu 0,93%, influenciado por produtos farmacêuticos e serviços médicos. Habitação avançou 0,42%, com reajustes em energia elétrica e aluguel, e vestuário teve alta de 0,76%. Educação mostrou estabilidade, com variação de 0,05%.
Nenhum dos nove grupos registrou queda em abril, evidenciando uma difusão mais ampla das pressões inflacionárias na economia.
Metodologia e abrangência do indicador
O IPCA-15 utiliza a mesma cesta de produtos e mesma estrutura de ponderação do IPCA completo, referência para a política monetária do Banco Central. A diferença principal está no período de coleta: para a prévia divulgada hoje, os preços foram coletados entre 18 de março e 15 de abril. O índice considera famílias com renda mensal de 1 a 40 salários mínimos e cobre 11 regiões metropolitanas, enquanto o IPCA integral inclui 16 localidades. O resultado definitivo de abril será conhecido em 12 de maio.
Apesar da aceleração observada em abril, a variação em 12 meses permanece abaixo do teto da meta, o que dá algum espaço para que a autoridade monetária mantenha o curso atual da política de juros. Entretanto, a forte pressão de alimentos e, sobretudo, de combustíveis indica que o comportamento dos preços internacionais do petróleo e fatores sazonais domésticos seguirão no radar de consumidores, empresas e formuladores de políticas nas próximas leituras do índice.








