O avanço de fraudes e aliciamentos praticados em ambientes digitais motivou um encontro entre diferentes órgãos públicos de Mato Grosso do Sul para discutir novas estratégias de enfrentamento ao tráfico de pessoas. O seminário, denominado NETP-MS Conecta, ocorreu na última sexta-feira (24) no auditório da Escola Superior da Defensoria Pública, em Campo Grande, e reuniu representantes do Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS), Defensoria Pública, forças de segurança e instituições da rede de proteção social.
A atividade integrou simultaneamente a programação da Campanha Coração Azul 2026 e da 12ª Semana Nacional de Mobilização para o Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas. Com o mote “Aprisionados pelo Golpe”, o evento concentrou-se no uso de perfis falsos, redes sociais e anúncios enganosos de emprego como iscas para exploração sexual, trabalho forçado e contrabando de migrantes. Autoridades apontam que o cenário digital, marcado pelo rápido compartilhamento de informações e pela dificuldade de rastreamento, tem sido explorado pelo crime organizado para expandir o recrutamento de vítimas dentro e fora do estado.
Durante a abertura, especialistas destacaram que a fragmentação das iniciativas governamentais permanece entre os principais desafios para combater a modalidade contemporânea do tráfico de pessoas. Segundo os participantes, a adoção de ações integradas envolvendo Ministério Público, Defensoria Pública, polícias e órgãos de assistência social é fundamental para garantir investigações ágeis, responsabilização dos envolvidos e suporte contínuo às pessoas resgatadas.
Entre os eixos temáticos abordados, o aliciamento digital ocupou posição central. Investigadores relataram a criação de contas falsas em plataformas populares, onde criminosos oferecem oportunidades de trabalho inexistentes ou propostas de relacionamento que resultam em sequestro, extorsão e exploração sexual. O recrutamento de trabalhadores para atividades análogas à escravidão, especialmente em serviços domésticos, também foi ressaltado como tendência crescente.
Outro ponto de discussão foi o trabalho escravo contemporâneo. Representantes da Comissão Estadual para Erradicação do Trabalho Escravo (Coetrae) chamaram atenção para casos de jornadas exaustivas, privação de liberdade e retenção de documentos, práticas que persistem em áreas urbanas e rurais do estado. O grupo defendeu a intensificação de fiscalizações e a capacitação de agentes para reconhecer sinais de exploração em residências particulares, fazendas e pequenos empreendimentos.
O contrabando de migrantes nas regiões de fronteira com Bolívia e Paraguai integrou a pauta de segurança pública. De acordo com a inteligência policial, rotas terrestres são utilizadas para transportar pessoas em situação vulnerável, muitas vezes mediante pagamento antecipado a atravessadores. A troca de informações entre forças estaduais e federais foi apontada como instrumento essencial para mapear trajetos, identificar quadrilhas e interromper o fluxo ilícito.
No eixo assistência e direitos, defensores públicos e assistentes sociais enfatizaram a importância de atendimento jurídico imediato, acompanhamento psicológico e inserção das vítimas em programas de proteção. O combate ao racismo estrutural também foi citado como componente decisivo, uma vez que pessoas negras e populações tradicionais figuram entre os grupos mais suscetíveis ao aliciamento e à exploração.

Imagem: Decom
Ao longo do dia, palestras e mesas-redondas reforçaram a necessidade de campanhas permanentes de informação para a sociedade civil. A instrução sobre como reconhecer promessas de emprego duvidosas, identificar perfis suspeitos nas redes sociais e denunciar situações de risco foi considerada medida preventiva capaz de reduzir a incidência de novos casos. Participantes defenderam a ampliação de canais de recebimento de denúncias anônimas e o fortalecimento das políticas de proteção a testemunhas.
A organização do NETP-MS Conecta ficou a cargo do Núcleo de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas (NETP-MS), em parceria com o Comitê Estadual de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas (Cetrap) e a Coetrae. Segundo os coordenadores, o formato presencial aliado à transmissão on-line permitiu o alcance de profissionais que atuam em municípios distantes da capital, favorecendo a padronização de protocolos de atendimento e de investigação.
Como encaminhamento, os participantes acordaram a criação de grupos de trabalho temáticos para elaborar fluxos de atuação conjunta, compartilhar bancos de dados e promover capacitações integradas. A expectativa é que novas reuniões sejam realizadas antes do encerramento da Semana Nacional de Mobilização, com apresentação de metas sobre prevenção, repressão e assistência voltadas ao próximo biênio.
Com foco no uso responsável da tecnologia, autoridades reforçaram que a eficácia das medidas depende da cooperação contínua entre esferas municipal, estadual e federal. O alinhamento de estratégias, somado ao engajamento de organizações da sociedade civil, foi apontado como caminho para reduzir a vulnerabilidade de potenciais vítimas e enfraquecer as redes de tráfico de pessoas em Mato Grosso do Sul.








